ROBERT DOISNEAU E ALFRED EISENSTAEDT: ENTRE FOTOGRAFIAS E BEIJOS

em História da Fotografia.

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Você já deve ter visto esta imagem antes. Talvez tenha até postado nas redes sociais em comemoração ao “Dia dos namorados”. Foto: Robert Doisneau

Fhox/Amanda M. P. Leite

Sim, o tema é o amor.
Uma cena que poderíamos encontrar em qualquer ponto da cidade.

Homens e mulheres se
deslocando em diferentes direções, pessoas tomando o café da manhã, movimento na
rua, um casal apaixonado. Seria o retrato de um dia feliz? O beijo do Hotel
Ville, foi publicado na revista Life, junho de 1950, para uma matéria sobre o
romantismo francês na época da primavera parisiense.

Na ocasião Robert
Doisneau era quase desconhecido. O desafio do fotógrafo era capturar o tema
amor de modo espontâneo. Por se tratar de um tema comum e bastante explorado,
seria possível evitar o clichê? Doisneau provoca em nós a surpresa em torno do
amor romântico. Miramos a imagem, relembramos de literaturas, filmes, letras de
música, cartas (não) escritas, revivemos o “final feliz” que se apresenta nos
contos de fadas cotidianos. Somos surpreendidos por uma fotografia instantânea
ou um instante encenado? Pode ser que a ausência de amor que caracteriza nossa
rotina atual nos leve a desejar descobrir sobre quem são as personagens
protagonistas desta imagem, em um movimento contrário ao de pensar sobre o
amor.

Embora a fotografia
mostre a espontaneidade entre o casal que se beija, os rumores que giraram em
torno desta imagem fizeram com que os curiosos vasculhassem diferentes
narrativas sobre a foto. Sabemos que Doisneau pagou os atores Françoise Delbart
e Jacques Carteaud para posar para captura. “A fotografia é tão famosa que, em
1993, Doisneau foi processado por três pessoas que afirmaram não terem sido
pagas para posarem para ele em 1950. Após um julgamento longo e que teve grande
repercussão na imprensa, a Justiça inocentou Doisneau em 1994, ano de sua
morte” (HACKING, 2012, p. 324).

Não interessa aqui pensar
sobre a questão dos direitos autorais em capturas realizadas em espaços
públicos, mas perceber aspectos que permitiram à imagem se sustentar como
símbolo efervescente do amor durante anos.

E ainda notar como a
fotografia marca o modo como apreendemos o mundo ao nosso redor. Aqui apontarei
alguns aspectos que fazem desta fotografia um acontecimento no panorama
fotográfico. Cabe citar Deleuze (2013, p. 133) que afasta a origem da verdade
para inventar conceitos e promover acontecimentos. O acontecimento gera
singularidades, vai além. O acontecimento mexe com o evento, com a ordem do
evento, pois o acontecimento não se trata daquilo que estou pensando, ele está
sempre em devir.

Existe a possibilidade de
a fotografia ser meio, rizoma, travessia, conversações. Não há ordem de
leituras, tampouco existe uma palavra última, da ordem da verdade. Há um jogo
entre fotografia, escrita e leituras. Esta combinação possibilita estranhar o
cotidiano e criar ficções. A fotografia é uma espécie de citação do mundo, um
recorte, um enquadramento duplicado, descontextualizado. Enquanto citação, a
fotografia abre passagens para certezas menos estáveis que, desestabilizadas,
transformam o regime representativo em outra coisa.

O primeiro destaque em O
beijo do Hotel Ville, é o próprio hotel, um dos cartões postais de Paris.
Turistas e moradores franceses contemplam este cenário diariamente. Em meio ao
agito da rua e o deslocamento de pessoas, o beijo do casal é capturado “do
ponto de vista de um freguês de um café de calçada.

O espectador é convidado
a participar daquilo que é ao mesmo tempo uma cena cotidiana e um símbolo
universal perfeito do amor da juventude”. Um beijo apaixonado que nos remete ao
segundo destaque, o casal. A roupa casual reforça o estilo de vida despojado
que eles aparentam ter. O beijo surge como um “gesto espontâneo e
autoconfiante, cheio de estilo: seus corpos em foco oferece um momento de calma
e ousadia em meio ao alvoroço indistinto da vida moderna que os cerca”.

O terceiro ponto é o
beijo. No contexto de 1950, é a captura de Doisneau que faz com que os
franceses conquistem o mundo com a alusão de um povo romântico. O quarto
destaque é a triangulação das mãos do casal.

Enquanto a mão direita do
homem segura firme e envolve a mulher, a mão esquerda prende um cigarro entre
os dedos e reforça uma ideia de masculinidade e proteção. Já a postura relaxada
da mulher mostra fragilidade e uma ideia de feminilidade relativa à época. O
último detalhe é a escolha dos tons em preto e branco que dão à fotografia um
“ar” saudoso e melancólico, além de lembrar fotos publicadas em jornais
sugerindo ao público que a cena era real (HACKING, 2012, p. 325).

Rancière (2012, p. 42), nos ajuda a pensar sobre a tensão entre uma fotografia que expõe aparentemente algo real e que ao mesmo tempo inexiste. A fotografia e seu regime estético provoca pausas, vazios, caos. No jogo da captura ora estamos diante da arte e da não arte.

É a indeterminação que nos possibilita usar a fotografia enquanto uma experiência conceitual, menos documental, ainda que a ideia de evidência ou representação nunca abandone a captura. Precisamos então olhar a superfície, a profundidade da superfície, as dobras da própria superfície. Aquilo que vemos como centro, pode ser descentralizado; aquilo que apontamos como o lado de fora pode ser o lado de dentro ou o inverso. Um jogo de forças em que Deleuze (2009, p. 12), aponta:

[…] é sempre contornando
a superfície, a fronteira, que passamos do outro lado, pela virtude de um anel.
A continuidade do avesso e do direito substitui todos os níveis de
profundidade; e os efeitos e superfície em um só e mesmo acontecimento, que
vale para todos os acontecimentos, fazem elevar-se ao nível da linguagem todo o
devir e seus paradoxos […]

Para pensar a superfície
da imagem fotográfica é preciso rever o avesso, o inverso, o paradoxo da
própria fotografia ou a pós-verdade que brota de narrativas e discursos. Deste
modo, trago outra fotografia para ser analisada, The Kiss – O beijo entre o
marinheiro e a enfermeira – de Alfred Eisentaedt, publicada na revista Life, em
1945. Revista que publicou Doisneau cinco anos depois. Foto que pode ter
influenciado a composição do fotógrafo sobre o amor.

Em The Kiss, estamos na Times Square, 4 de agosto de 1945, contexto do final da Segunda Guerra Mundial. Pessoas ocupam as ruas, se abraçam, desfilam sorridentes, festejam a vitória dos Estados Unidos. A fotografia de Alfred é um ícone deste momento histórico.

Alfred Eisentaedt, O beijo entre o marinheiro e a enfermeira Novas York 1945

Vemos em destaque o
marinheiro e a enfermeira. Uma cena tipicamente romântica, um reencontro. O
marinheiro sabe que não terá que embarcar novamente para o Pacífico, por isso,
vibra, comemora nos braços de sua amada. Uma imagem que arranca suspiros!

Calma! Observe as
fotografias com mais atenção. Demore-se nos detalhes. Há uma possível
(des)harmonia entre o casal? A enfermeira parece reagir ao beijo no terceiro
quadro da imagem. Não estamos rodeados pela atmosfera do amor?

A reação da enfermeira
gerou suspeitas e fez com que as pessoas buscassem outras narrativas sobre a
imagem. Espero que você leitor não se desaponte com a história, mas, não foi
amor à primeira vista! Ao contrário, o marinheiro segurou a enfermeira em um
abraço tão forte que não deu a ela qualquer chance de não beijá-lo.

A enfermeira, Greta Zimer
Friedman, foi beijada pelo marinheiro, George Mendonsa, no calor das
comemorações. Era a primeira vez que Greta estivera com George. O terceiro
quadro mostra Greta tentando se liberar do abraço de George. A noiva do
marinheiro aparece ao fundo de uma das capturas.

Assim como na foto de
Ruth Orkin (American Girl in Italy, 1951)[1], a fotografia de Eisenstaedt,
hoje, parece ganhar leituras que a aproxime de questões sobre o assédio sexual
e o desrespeito ao corpo feminino, um modo descontextualizado de olhar a
imagem.

A enfermeira garantiu em
declarações posteriores à publicação da foto que não se tratava de assédio, mas
de um instante feliz para a sociedade americana.

Por outro lado, você pode
se surpreender com o beijo e extrapolar a leitura sobre o amor e um beijo
ardente, daqueles que faltam o ar. The Kiss é a captura de um momento tão
singular que chegou a tornar-se livro, The Kissing Sailor, publicado em 2012,
por George Galdorisi e Lawrence Verria.

Fonte: https://bit.ly/2AFjBhB

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