INTERESSANTE NÃO, ATROZ!

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exposição de Veneza, escola focus
Thinking Head (2019), instalação da italiana Lara Favaretto, na fachada do Pavilhão Central do Giardini (Fotos: Ricardo Van Steen)

Pensar um mundo de duplos,
realidades paralelas e distópicas, catástrofes e ameaças é proposta da direção
artística da 58ª Bienal de Veneza

Paula Alzugaray/Select

May You Live in
Interesting Times, a exposição internacional da 58ª Bienal de Veneza,
inaugurada em 8/5, carrega um enigma a ser decifrado. “Interessante” é uma
palavra que não dá conta do que acontece no mundo hoje. Dizer que algo é
interessante é rejeitar a sua especificidade, afastá-lo do território do
problema, conferir-lhe um caráter genérico. Daí vem o incômodo causado pelo
título da mostra com direção artística de Ralph Rugoff, curador da Hayward
Gallery, de Londres. A frase, de complexa tradução para o português, já é uma
tradução em si: segundo o texto curatorial, seria a tradução que certo
diplomata britânico teria feito, nos anos 1930, de certo provérbio chinês
antigo, voltando de uma viagem ao Oriente.

Embora Rugoff argumente
(tanto no texto quanto na coletiva de imprensa, na abertura) que dizer
interessante é o mesmo que se referir à precariedade da existência, a tempos
desafiadores e ameaçadores, poderíamos aqui contra-argumentar que nefasto,
atroz, extremo, regressivo ou pós-apocalíptico são adjetivos que expressam com
mais acuidade o tempo presente. Soa um tanto simplista dizer que “a arte pode
ser um tipo de guia sobre como viver e pensar em ‘tempos interessantes’”. A
afirmação soa como o statement de uma exposição para uma sociedade sem
conflito, construída desde o ponto de vista do homem branco europeu que pensa a
contemporaneidade a partir da ideia de uma “ordem mundial do pós-Guerra”.

Mas pós-Guerra para quem?
Nos dois edifícios que recebem a curadoria central da Bienal de Veneza, o
Pavilhão Central do Giardini e o Arsenale, os trabalhos expostos de 80 artistas
convidados falam por si. De uma forma ou de outra, estão ali representadas as
guerras contemporâneas – a decretada pelo Estado Islâmico, as guerras civis em
sociedades ditatoriais árabes e africanas, as zonas de violência e convulsão
social nos países latino-americanos, os conflitos raciais etc. –, mostrando que
o tempo histórico em que vivemos é de catarse e não de pós-Guerra. No entanto,
é certo que a mostra assume um partido na direção inversa ao documental. Rugoff
argumenta que “arte é mais que um documento de seu tempo”. Ele aponta que “em
contraste ao jornalismo ou à reportagem histórica, a arte articula uma
diferença da textura dos fatos”.

A exposição internacional da 58ª Bienal de Veneza, inaugurada em 18/5, carrega um enigma a ser decifrado. “Interessante” é uma palavra que não dá conta do que acontece no mundo hoje. Dizer que algo é interessante é rejeitar a sua especificidade, afastá-lo do território do problema, conferir-lhe um caráter genérico. Daí vem o incômodo causado pelo título da mostra com direção artística de Ralph Rugoff, curador da Hayward Gallery, de Londres. A frase, de complexa tradução para o português, já é uma tradução em si: segundo o texto curatorial, seria a tradução que certo diplomata britânico teria feito, nos anos 1930, de certo provérbio chinês antigo, voltando de uma viagem ao Oriente.

Embora Rugoff argumente
(tanto no texto quanto na coletiva de imprensa, na abertura) que dizer
interessante é o mesmo que se referir à precariedade da existência, a tempos
desafiadores e ameaçadores, poderíamos aqui contra-argumentar que nefasto,
atroz, extremo, regressivo ou pós-apocalíptico são adjetivos que expressam com
mais acuidade o tempo presente. Soa um tanto simplista dizer que “a arte pode
ser um tipo de guia sobre como viver e pensar em ‘tempos interessantes’”. A
afirmação soa como o statement de uma exposição para uma sociedade sem
conflito, construída desde o ponto de vista do homem branco europeu que pensa a
contemporaneidade a partir da ideia de uma “ordem mundial do pós-Guerra”.

Mas pós-Guerra para quem?
Nos dois edifícios que recebem a curadoria central da Bienal de Veneza, o
Pavilhão Central do Giardini e o Arsenale, os trabalhos expostos de 80 artistas
convidados falam por si. De uma forma ou de outra, estão ali representadas as
guerras contemporâneas – a decretada pelo Estado Islâmico, as guerras civis em
sociedades ditatoriais árabes e africanas, as zonas de violência e convulsão
social nos países latino-americanos, os conflitos raciais etc. –, mostrando que
o tempo histórico em que vivemos é de catarse e não de pós-Guerra. No entanto,
é certo que a mostra assume um partido na direção inversa ao documental. Rugoff
argumenta que “arte é mais que um documento de seu tempo”. Ele aponta que “em
contraste ao jornalismo ou à reportagem histórica, a arte articula uma
diferença da textura dos fatos”.

O desafio posto é então
buscar sentidos para o enigma. Como seria a sentença original em chinês? Que
outras traduções seriam possíveis? As dúvidas lançadas pelo título refletem-se
nos espaços expositivos: não há um guia nem uma só direção a seguir. Cabe ao
espectador buscar entre as obras as relações que tecem os fios narrativos da
exposição. A invenção de mundos na era da pós-verdade e das fake news é um
desses fios. A desconstrução de certezas e a imaginação de outras verdades são
o que se extrai da melhor parcela dos trabalhos expostos.

É tudo verdade

O norte-americano Kahlil
Joseph, lida explicitamente com a manipulação de notícias e imagens extraídas
do YouTube e de lives de Instagram. Concebido com um programa de televisão
sobre a vida de negros americanos, apresenta em dois canais uma edição que
mistura filmagens amadoras com imagens produzidas pela grande mídia. Examinar
as noções de raça articuladas na cultura midiática, relativizar e tomar posse
do discurso construído pelo poder é uma estratégia que Kahlil Joseph
compartilha com Arthur Jafa, o vencedor do Leão de Ouro da 58ª Bienal. Jafa
apresenta no Pavilhão Central do Giardini o estarrecedor The White Album
(2019), vídeo de 50 minutos com cenas surreais de opressão da supremacia branca
sobre pessoas negras – tudo apropriado da internet, tudo real.

O prêmio a Jafa confirma
o protagonismo que as narrativas da diáspora africana e de sua descendência
pós-colonial alcançam no sistema de arte internacional. Bastante expressivo
nesta Bienal o conjunto de artistas abordando questões socioculturais,
identitárias e migratórias da negritude. Entre eles, o norte-americano Henry
Taylor; a nigeriana residente em Antuérpia Otobong Nkanga (menção honrosa); a
nigeriana residente em Los Angeles Njideka Akunyili Crosby; e o queniano
residente em Londres Michael Armitage. Diversidade de gênero e visibilidade
lésbica orientam a fotografia performática da sul-africana Zanele Muholi. Mas a
demarcada presença da pintura como linguagem partilhada entre a maioria desses
artistas faz lamentar a ausência da pintura do brasileiro Arjan Martins, que
teria contextualizado essa discussão no Sul global.

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Sobre o autor

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