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1957 - PRIMEIRA IMAGEM DIGITAL
A primeira imagem dita digital foi criada em 1957, por
Russell Kirsch, homem pioneiro na computação. A foto
tinha 176 pixels em sua altura e retratava,
arcaicamente, um bebê de três anos. A fotografia digital
completa, neste ano de 2007, 50 anos de existência e
constante aprimoramento, dotando o mundo contemporâneo
de uma austera capacidade de registrar. Dos
camera-phones aos backs digitais para máquinas de grande
formato, a virtualização da imagem tomou quase que por
completo o meio fotográfico, salvo raras (e necessárias)
exceções.
Inicio este ensaio sobre as questões implicadas pela
imagem digital, com base na exposição de Rosângela Rennó,
intitulada A Última Foto.
Tal artista vem trabalhando ao longo de sua carreira com
a apropriação de imagens, resgatando negativos em
instituições falidas, comprando fotos em brique à
braques, ganhando de amigos e muitas outras fontes. É
constituído um trabalho em torno da identidade, da
memória, do esquecimento e da morte. Colecionismo à
parte, esse labor constrói uma forma de deslocar a
natureza documental ou iconográfica dessas imagens para
o campo da arte, fazendo-as perder seu sentido de
registro para que passem a ser obras, tornando assim a
noção de autoralidade perdida em meio ao conteúdo das
imagens. O autor da foto para este tipo de trabalho é
puro acaso. O contexto dessas imagens é que irá denotar
seu verdadeiro autor, ou seja, a própria artista.
Em A Última Foto, Rosângela convidou 42 fotógrafos a
utilizarem diferentes tipos de câmeras analógicas para
fotografar a estátua-símbolo do Rio de Janeiro. Algo
duplamente curioso nessa escolha, uma vez que uma
estátua simboliza por si só a essência da fotografia,
seu caráter de congelamento; e também por ser centro de
disputas judiciais relativas ao direito de imagem. Os
herdeiros do artista Paul Landowsky lutam na justiça
para proibir o uso comercial da imagem do Cristo
Redentor sem autorização prévia.
Todos os fotógrafos cederam o direito de imagem à
Rosângela e o que se vê na exposição são diferentes
olhares, em dípticos ou trípticos. Ao lado de cada
imagem ampliada, é colocada numa caixa de acrílico a
própria máquina que a gerou, com sua objetiva selada,
criando um círculo referencial.
A possibilidade de olharmos hoje fotos tiradas há 50,
80, 100 anos deve-se ao fato de que fotógrafos
materializaram tais instantes em objetos, em papel. É
grande a importância desse tipo de imagem não só para a
memória coletiva, mas também para pesquisadores que
voltam seus estudos para os hábitos e para o registro
documental. Hoje o que temos é a construção de uma
memória cibernética através da qual todas as fotos
passam pelo computador, mas raramente saem dele. São
poucas as fotos de família ou de viagens que circulam
fora de fotologs, blogs e afins. Há uma confiança neste
suporte virtual que é extremamente frágil. As
possibilidades de colapsos são inúmeras e não se dá o
devido valor à imagem até que ela seja perdida. A
fotografia torna-se cada vez mais volátil. Ao ampliar um
foto, seja ela de origem numérica ou química, há uma
garantia para as gerações futuras do "isso foi", de
Roland Barthes. A memória pressupõe em seu conceito o
esquecimento de um fato, com uma possibilidade ulterior
de retomada através de registros. Num futuro não tão
longínquo, as imagens produzidas hoje podem vir a ser
tratadas como lixo cibernético, uma massa amorfa de bits
e bytes absolutamente desorganizada, isso se for
possível acessá-la.
Vê-se uma banalização do registro. Uma incongruência
documental, pela qual o "fotógrafo" se preocupa em
registrar tudo, mas não se preocupa em, de fato, fazer
tais imagens perseverarem. É uma espetacularização da
tecnologia que compromete as gerações futuras de
descobrirem as raízes de suas identidades. Amnésia
social e tecnocracia. A imagem digital aliada à Internet
decerto torna mais fácil o acesso à fotografia, mas traz
consigo um caráter imediatista e falsamente divulgado
como democrático. O quê nos certifica que os softwares
de imagens de daqui a 30 anos lerão nosso arquivos
digitais de hoje? Nada.
Ao selar a objetiva da câmera, Rosângela Rennó a
transforma em objeto museográfico e imbui a foto que lhe
acompanha de uma morbidez tecnológica. A artista leva o
espectador a pensar sobre o que é certo ou não acerca do
futuro da imagem, sobre a perda de sua identidade, sobre
o limite da permanência e do esquecimento e,
principalmente, sobre a função social da fotografia. É
mais uma proposta de Rosângela para o resgate da memória
coletiva através da arte. Certeza temporal, mesmo,
somente naquelas imagens ampliadas em papel fotográfico,
com seus negativos matriciais.
Fonte:
http://idgnow.uol.com.br/computacao_pessoal/2007/05/25/idgnoticia.2007-05-25.3211821373/
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