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O CASO DOS
NEGATIVOS PERDIDOS DE ROBERT CAPA
Fonte: The New York Times - Tradução: Claudia
Dall'Antonia
Milhares de negativos de fotos que Capa, um dos
pioneiros da moderna fotografia de guerra, tirou durante
a Guerra Civil Espanhola são devolvidos após ficaram
escondidos durante mais de meio século
Autor:Randy Kennedy
Para o pequeno grupo de especialistas em fotografia que
sabem de sua existência, o caso era conhecido
simplesmente como "a valise mexicana." E no panteão dos
modernos tesouros culturais perdidos, era cercado pela
mesma aura mítica dos primeiros manuscritos de
Hemingway, que desaparecerem de uma estação ferroviária
em 1922.
A valise -na realidade, três frágeis maletas de papelão-
continham milhares de negativos de fotos que Robert
Capa, um dos pioneiros da moderna fotografia de guerra,
tirou durante a Guerra Civil Espanhola ante de fugir da
Europa para os Estados Unidos em 1939, deixando para
trás os trabalhos em sua câmera escura de Paris.
"Se suas fotos não são boas o suficiente, você não está
perto o suficiente" era o mantra do fotógrafo Robert
Capa Capa pensou que o trabalho tinha sido perdido
durante a invasão dos nazistas, e morreu em 1954, em
trabalho no Vietnã, ainda acreditando nisso. Mas em 1995
começou a circular a versão de que os negativos haviam
escapado, depois de uma jornada digna de um romance de
John le Carre: de Paris para Marselha e depois, nas mãos
de um general e diplomata mexicano que havia prestado
serviço a Pancho Villa, para a Cidade do México.
E lá eles ficaram escondidos durante mais de meio
século, até o mês passado, quando fizeram aquela que
pode ser sua viagem final, para o Centro Internacional
de Fotografia de Manhattan, fundado pelo irmão de
Robert Capa, Cornell. Anos depois de negociações
silenciosas, intermitentes, sobre qual seria sua
verdadeira casa, a posse legal sobre os negativos foi
transferida recentemente ao espólio Capa pelos
descendentes do general, incluindo um cineasta mexicano
que os viu pela primeira vez na década de 1990 e logo
percebeu a importância história do material em poder de
sua família.
"Esse é realmente o Santo Graal do trabalho de Capa",
disse Brian Wallis, principal curador do centro,
acrescentando que além dos negativos de Capa,
descobriu-se que as caixas, rachadas, cobertas de
poeira, também continham imagens da Guerra Civil
Espanhola tiradas por Gerda Taro, a parceira
profissional e durante algum tempo, pessoal, de Robert
Capa e por David Seymour, conhecido como Chim, que
ajudou a fundar a influente agência Magnum de fotografia
com Capa.
A descoberta gerou comoção em todo o mundo da
fotografia, no mínimo porque se espera que os negativos
possam estabelecer, de uma vez por todas uma dúvida que
persiste sobre o legado de Capa: se é possível que sua
foto mais famosa -e uma das fotos de guerra mais famosas
em todos os tempos- foi encenada. Conhecida como "A
morte do soldado republicano", ela mostra um miliciano
legalista caindo para trás no que parece ser o instante
em que uma bala atinge seu peito ou cabeça em uma colina
perto de Córdoba em 1936.
Quando a foto foi
publicada pela primeira vez na revista francesa Vu,
causou sensação e ajudou a cristalizar o apoio à causa
republicana. "A morte do soldado republicano": negativos
podem encerrar a dúvida sobre encenação
Embora o biógrafo de Capa, Richard Whelan, tenha
defendido enfaticamente que a foto não é uma invenção,
as dúvidas persistiram. Em parte porque nem Capa nem
Taro fizeram questão de manter isenção jornalística
durante a guerra -eles eram comunistas partidários da
causa republicana- e conhecidos por fotografar manobras
encenadas, uma prática usual na época. Jamais se
descobriu o negativo da foto (ela tem sido há muito
tempo reproduzida a partir de uma impressão antiga), e a
descoberta de algum negativo, especialmente na seqüência
original, mostrando todas as fotos tiradas antes e
depois do tiro, pode encerrar o debate.
O fotógrafo Mas a descoberta está sendo saudada como um
enorme acontecimento por motivos que vão além de
questões de medicina legal. Esse é o trabalho formador
de um fotógrafo que, num século definido pelos conflitos
armados, exerceu um papel crucial da definição de como a
guerra foi vista, trazendo seus horrores para mais perto
que nunca -"Se suas fotos não são boas o suficiente,
você não está perto o suficiente" era seu mantra- embora
no processo elas ganhassem um tom mais cinematográfico e
fictício. (Capa, como não é de se surpreender, mais
tarde prestou serviço de free lance em Hollywood,
ficando amigo de diretores como Howard Hawks e
cortejando Ingrid Bergman).
Capa praticamente inventou a imagem do fotógrafo de
guerra globe-trotter, com um cigarro pendendo do canto
da boca e câmeras penduradas em seu colete. Seu espírito
intrépido inspirava respeito até mesmo aos soldados que
eram o seu tema, e entre batalhas ele saia com Hemingway
e Steinbeck e geralmente bebia demais, parecendo fazer
tudo com ostentação. William Saroyan escreveu que achava
Capa "um jogador de pôquer cujo hobby era fotografar."
De uma forma "warholiana" isso parece apenas aumentar
seu fascínio contemporâneo, e além disso ele de certa
forma inventou a si mesmo. Nascido Endre Friedmann, na
Hungria, ele e Taro, que conheceu em Paris, criaram a
personagem Robert Capa - eles o chamava de "um famoso
fotógrafo norte-americano"- para ajudar a conseguir
trabalhos. Ele então incorporou a ficção e tornou-a
realidade. (Taro, uma alemã cujo nome real era Gerta
Pohorylle, morreu na Espanha em 1937 em um acidente com
um tanque, enquanto fotografava.)
Os negativos
Curadores do
Centro de Fotografia, que iniciaram um programa de dois
meses de duração para conservar e catalogar a obra
descoberta recentemente, dizem que a história toda de
como os negativos, cerca de 3.500, chegaram do México,
pode jamais vir a ser conhecida.
Em 1995, Jarald R. Green, professor no Queens College,
parte da City University de Nova York, recebeu uma carta
de um cineasta da Cidade do México que havia acabado de
ver uma exposição de fotos da Guerra Civil
Espanhola, patrocinada em parte pela faculdade. Ele
escreveu que recentemente recebera um arquivo com
negativos em nitrato que eram de sua tia e herdados do
pai dela, general Francisco Aguilar Gonzalez. O general
fora destacado como diplomata no final de década de 1930
para Marselha, onde o governo mexicano, defensor da
causa republicana, começou a ajudar refugiados
antifascistas da Espanha a imigrar para o
México.
Do que os especialistas conseguiram juntar de arquivos e
a pesquisa de Whelan, o biógrafo (que morreu no ano
passado), Capa aparentemente pediu ao gerente de sua
sala de revelação, um amigo e fotógrafo húngaro
chamado Imre Weiz, conhecido como Cziki, para salvar
seus negativos em 1939 ou 1940, quando Capa estava em
Nova York e temia que seu trabalho pudesse ser
destruído.
Acredita-se que Weisz tenha levado as maletas para
Marselha, mas foi preso e enviado para um campo de
prisioneiros em Argel. Em algum ponto os arquivos foram
parar com Aguilar Gonzáles, que os levou para o
México, onde morreu em 1967. Não está claro se o general
sabia quem havia levado as fotos ou o que elas
mostravam; mas se sabia, parece que jamais tentou entrar
em contato com Capa ou Weisz, que coincidentemente morou
o resto de sua vida na Cidade do México, onde casou com
a pintora surrealista Leonora Carrington. (Weisz morreu
recentemente, com 90 anos; Whelan o entrevistou para sua
biografia de 1985 de Capa mas não acrescentou qualquer
informação sobre
os negativos perdidos.)
"Em retrospectiva, parece estranho que não tenham sido
feitos esforços para localizar essas coisas," disse
Wallis. "Mas eu acho que eles simplesmente desistiram.
Eles teriam sido perdidos na guerra, como tantas outras
coisas."
Quando o centro de fotografia ficou sabendo que a obra
poderia existir, entrou em contato com o cineasta
mexicano e pediu a sua devolução. Mas as negociações por
carta e telefonemas não trouxeram nenhum compromisso,
disse Philip S.Block, vice-diretor para programas do
centro, que acrescentou que outros não tinham nem
certeza de que as alegações do cineasta eram
verdadeiras, porque ninguém havia mostrado os negativos.
(Dizendo que a devolução dos negativos era uma decisão
coletiva da família Aguilar Gonzáles, o cineasta pediu
para não ser identificado nessa reportagem e recusou-se
a ser entrevistado.)
Foram marcadas reuniões com o homem, mas ele não
compareceu. "Então, houve uma ruptura total nas
comunicações, sabe-se lá por qual razão," disse Block.
Iniciativas para restabelecimento de contato foram
tomadas, de tempos em tempos, sem sucesso. Mas quando o
centro começou a organizar novas exposições das fotos de
guerra de Capa e Taro, inauguradas em setembro, ele
decidiu tentar de novo, na esperança de que as imagens
dos primeiros negativos pudessem ser incorporadas às
mostras.
"Ele nunca pediu dinheiro," disse Wallis sobre o
cineasta. "Ele simplesmente parecia querer garantir que
os negativos fossem para o lugar certo."
Frustrado, o centro recorreu à ajuda de uma curadora e
de estudiosa, Trisha Ziff, que mora na Cidade do México
há muitos anos. Depois de trabalhar várias semanas,
apenas para localizar o homem recluso, ela iniciou o que
acabou sendo quase um ano de discussões sobre os
negativos.
"Não é que ele não conseguia se desfazer deles," disse
Ziff, em uma entrevista por telefone, de Los Angeles,
onde está complementando um documentário sobre a imagem
mais divulgada de Che Guevara, com base em uma
fotografia de Alberto Korda.
"Acho que é porque ninguém, antes de mim havia dado
tanta importância a isso, uma vez que algo tão delicado
precisa ser tratado de forma importante," ela disse. O
cineasta temia em parte que as pessoas no México
pudessem criticar o envio dos negativos para os Estados
Unidos, considerando as imagens como parte da profunda
conexão histórica de seu país com a Guerra Civil
Espanhola. "Era preciso respeitar e admirar o
dilema enfrentado por ele," ela disse.
No final Ziff convenceu-o a transferir a obra -"acredito
que posso ser definida como uma pessoa obstinada," ela
disse- ao mesmo tempo em que também garantiu uma
promessa da parte do centro de fotografia, de permitir
que o cineasta use imagens de Capa para um documentário
que gostaria de fazer sobre a sobrevivência dos
negativos, a jornada até o México e o papel de sua
família de preservá-los.
"Eu o encontro com bastante regularidade," disse Ziff,
"e acho que ele está em paz a respeito disso agora."
Em dezembro, depois de duas entregas antecipadas de
boa-fé de pequenas quantidades de negativos, o cineasta
finalmente entregou a Ziff a maior parte da obra, e ela
a transportou pessoalmente, em um vôo para
Nova York.
"Eu não ia colocar o material em uma caixa da FedEx,"
ela disse.
"Quando recebi as caixas, quase senti como se elas
estivessem vibrando em minhas mãos," ela acrescentou.
"Essa foi a parte mais fantástica para mim."
Preciosidades
Wallis disse que
enquanto especialistas em conservação, da George Eastman
House em Rochester, N.Y., só agora começam a avaliar as
condições, os negativos parecem estar notavelmente bons
para um filme de nitrato de 70 anos de idade, armazenado
no que essencialmente se parece com caixas de confeitos.
"Parece que eles foram feitos ontem," ela disse. "Não
estão nada frágeis. Eles estão muito novos. Nós só demos
uma olhada cuidadosa em alguns deles, só para ter a
noção do que há em cada rolo."
E já existem descobertas surgindo das caixas -uma
vermelha, outra verde e uma bege- cujo conteúdo parece
ter sido cuidadosamente etiquetado em tabelas desenhadas
à mão feitas por Weisz ou outro assistente do estúdio.
Pesquisadores já se depararam com fotos de Hemingway e
de Federico Garcia Lorca.
O negativo de uma das mais famosas fotografias de Chim
da Guerra Civil Espanhola, mostrando uma mulher
amamentando um bebê em seus braços enquanto olha para
cima, acompanhando um discurso, numa concentração de
massa em 1936, também foi encontrado. "Ficamos admirados
em ver isso," disse Wallia. (A fotografia, geralmente
exibida como uma mulher que olha preocupada para o céu
em busca de bombardeiros, foi mencionada por Susan
Sontag em "Diante da Dor dos Outros", uma revisão de
idéias a partir de seu tratado bastante conhecido,
"Sobre Fotografia," o exame crítico das imagens de dor e
sofrimento.)
A pesquisa poderá provocar uma reavaliação da obscura
carreira de Taro, uma das primeiras mulheres fotógrafas
de guerra, e pode levar à conclusão de que algumas das
fotos atribuídas a Capa são na realidade,
dela. Os dois trabalhavam juntos e rotularam alguns de
seus primeiros trabalhos sob o mesmo crédito, às vezes
tornando difícil estabelecer conclusivamente de quem era
a autoria, disse Wallis. Ele acrescentou que
existe até mesmo a remota possibilidade de que "A morte
do soldado republicano" seja de Taro e não de Capa.
"Essa é uma outra teoria que surgiu",ele disse. "Nós não
sabemos ainda. Para mim, isso é que torna tão
extraordinário esse material. Existem tantas dúvidas e
tantas questões que sequer surgiram, e que os negativos
podem responder."
No final, disse Wallis, a descoberta é significativa
porque é a matéria-prima do nascimento da própria
moderna fotografia de guerra.
"Capa estabeleceu o modo e o método de descrever a
guerra nessas fotografias, colocando o fotógrafo não
como um observador, mas estando na batalha, e isso se
tornou o padrão que o público e os editores exigem a
partir de então," ele disse. "Qualquer outra coisa,
parece que o fotógrafo está apenas como observador. E
aquela revolução visual que ele encarna aconteceu
exatamente ali, naquelas primeiras fotos."
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