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A MENSAGEM
FOTOGRÁFICA
SEGUNDO ROLAND BARTHES
Nascido em 1915, Roland Barthes continua sendo, até
hoje, o nome mais conhecido da semiologia de origem
francesa, como o critico que pela primeira vez aplicou o
método estruturalista á analise do conteúdo fotográfico.
O autor, em 1962, inicialmente parte de um modelo
simples e notório nos estudos sobre linguagem: como em
toda mensagem, a mensagem fotográfica se compõe em três
partes: emissão, canal e meio receptor. A primeira e a
terceira impõem abordagem de procedência sociológica,
desta porém escapa o eixo mesmo do fenômeno – a
decifração do canal. Assim acontece porque este – no
caso presente, a mensagem fotográfica – constituindo
sistema próprio, é uma forma de discurso anterior à
análise sociológica, não suscetível de ser por ela
imediatamente apreendido, embora acrescentemos passíveis
de posterior interpretação também sociológica.
Barthes descobre que a fotografia deve ser indagada como
manipulação de sistemas. E como tal, deve ser analisada
neste aspecto. Funciona como montagem entre sistemas
prévios, ai aglutinado: O propriamente fotográfico,
cujos constituintes imediatos são tonalidades, linhas e
superfícies e seu referido contexto.. Dentro desta
démarche inicial verifica-se o sistema fotográfico
caracterizado, de início, por ser uma mensagem sem
código, porquanto se pretenda a pura transcrição do
real.
Documento absoluto de verdade, reprodução exata da
realidade. Talvez para um olhar desatento, a fotografia
tenha única e absolutamente estes papéis. Já um olhar
observador vai mais longe: questiona a própria
existência da fotografia, discute sua importância como
aparelho reprodutor de ideologia.
É isso que faz Roland Barthes, em seu livro A Câmara
Clara (1980). Aborda o enigma da fotografia exatamente
no ponto o da linguagem. Barthes, como todo semiólogo,
quer saber qual a estrutura da linguagem fotográfica.
Barthes, fiel à sua tradição cartesiana, questiona-se,
antes de tudo, sobre o método a seguir. A partir disso
encontra-se, em todas as fotografias por ele examinadas,
dois elementos inerentes imagem que terão denominações
em latim, à falta de um correspondente em francês: o
studium e o punctum. Studium é, em síntese, o interesse
humano, cultural e político, estimulado pela imagem
fotográfica. O studium é os referentes visuais que nos
tocam, humanamente, culturalmente e moralmente, mas
permanecem em plano impessoal, sem nos atingir de forma
especial. Por outro lado, o punctum, na concepção de
Barthes, seria um elemento, um detalhe inadvertido que
salta da fotografia e nos trespassa como uma flecha.
Punctum seria, então, uma picada, algo que nos fere, que
nos "punge". Neste contexto, o punctum faz o personagem
"sair da fotografia" e assumir vida à parte, sendo,
portanto, uma espécie de extracampo sutil, como se a
imagem lançasse o desejo para além daquilo que ela dá a
ver. Nesses termos, conclui Barthes que a pintura pode
muito bem simular a realidade sem jamais tê-la visto. O
discurso, idem, com seus referentes muitas vezes
quiméricos. Na fotografia acontece o contrário, pois o
próprio Barthes afirma que nunca poderia negar que a
coisa fotografada realmente estivesse lá. Assim, vão
absolutamente induvidosos dois pontos: a realidade do
referente fotografado e seu passado. Uma fotografia é
sempre uma imagem de algo. Esta está atrelada ao
referente que atesta a sua existência e todo o processo
histórico que o gerou. Ler uma fotografia implica em
reconstituir no tempo seu assunto, derivá-lo no passado
e conjugá-lo a um futuro virtual.
A foto faz um registro histórico do momento, um instante
que não poderá ser reproduzido novamente, levando-se em
consideração a época, os costumes e as tradições que
ficam eternizados no instante fotografado. É por isso
única e de caráter documental, segundo Roland Barthes.
Machado, em sua obra “A Ilusão Especular” ressalta o
mesmo caráter documental, “mas não através do que a
fotografia pode dizer enquanto registro de um instante,
e sim através de sua materialidade.” Ou seja, para ele o
que caracteriza o caráter histórico da foto é a
definição dos elementos que a compõe enquanto um
processo químico. Sua discussão trata a fotografia
enquanto técnica. Barthes ressalta ainda o caráter
conservador da foto. A imobilidade, fixação de um
instante através da pose, é o que constitui a natureza
da fotografia. a pose eterniza uma ficção e não uma
realidade.A ficção decorre do fato de que a pose do
fotografado é uma imagem criada, é a imagem que se quer
passar, aquilo que imaginamos ser, e não o que somos.
Pode-se dizer que a foto realmente eterniza uma imagem
mesmo que esta não corresponda à verdade absoluta, mas a
uma verdade fabricada, aquela que se quer passar
adiante. O caráter subjetivo da fotografia não pode ser
desprezado. A imagem retratada, ao mesmo tempo em que
apreende o real, reflete o ponto de vista de seu autor.
A falta de uma análise marxista no domínio da filosofia
da linguagem, mais notadamente a fotografia e
posteriormente o cinema, levaram V. N. Volochinov a
desenvolver, no final da década de 1920, um estudo
intitulado Marxismo e Filosofia da Linguagem. Ele sempre
acreditou que as ideologias não podem ser tomadas como
outra coisa senão como a solidariedade dos sistemas de
representação do grupo social que os forjou em uma
condição dada.
A concepção positivista do empirismo, que sempre se
posicionou diante desse objeto de estudo, é de modo não
o dialético, mas sim como algo intangível e imutável,
ainda persiste. Na lingüística em si, após o
positivismo, presenciamos um período marcado pela recusa
de qualquer teorização dos problemas científicos,
acrescentada de hostilidades oriundas dos positivistas
retardatários, em relação às questões de visão de mundo.
Assistimos, assim, à clara tomada de consciência dos
fundamentos filosóficos dessa corrente e de sua
interação com os outros domínios de conhecimento. Isso
foi suficiente para transparecer a crise que a
lingüística atravessa, na sua inércia de solucionar
problemas de maneira concreta e mais viável.
Para Volochinov, "tudo que é ideológico possui um
significado e remete a algo situado fora de si mesmo".
produto ideológico é parte da realidade, seja ela
natural ou social, como todo corpo físico, instrumento
de produção ou mesmo de consumo; mas, ao contrário
destes, também reflete e refrata outra realidade, que
lhe é exterior.
Desta forma, Volochinov parte da concepção de que tudo
que é ideológico possui um significado e remete a algo
situado fora de si mesmo. "Tudo que é ideológico é um
signo".Portanto, sem signos não existe ideologia. O
signo ideológico, dessa forma, resulta de um consenso
entre indivíduos socialmente organizados, razão pela
qual as suas formas de manifestação decorrem da
organização dessa manifestação.
Os signos também são objetos naturais e específicos. Por
outro lado, todo produto natural, tecnológico, ou de
consumo, pode vir a ser signo e adquirir uma atribuição
que ultrapasse suas próprias particularidades. O signo
não se justifica apenas como fragmento da realidade; ele
também reflete e refrata uma outra, também distinta.
Nesse processo, o signo pode distorcer essa realidade,
ser-lhe fiel, ou ainda apreendê-la de um ponto de vista
específico. Essa manipulação característica de todos os
signos se justifica na medida em que todos eles estão
sujeitos aos critérios de avaliação ideológica. Pode-se,
então, concluir que o domínio ideológico coincide com o
domínio dos signos. Portanto, "tudo que ideológico
possui um valor semiótico".
As realidades materiais da ideologia são, portanto, os
signos, entidades elementares que constituem todos os
sistemas de representação. As ideologias, conforme vimos
a partir da concepção de Volochinov, não podem ser
vistas como algo diferente dessa realidade material que
lhes dá corpo. Os signos são criados pelos grupos
sociais no curso de suas relações, pois todo o fenômeno
sígnico e ideológico é dado de uma forma material, como
som, massa física, cor, movimento corporal e outras.
Assim, a realidade do signo totalmente objetiva e
unitária, pois o signo é um fenômeno do mundo exterior.
A definição clássica do signo seria "aquilo que está no
lugar de alguma coisa". Generalizando, o signo existe
para remeter alguma coisa fora dele mesmo, ou melhor,
para representar algo que não é dele próprio. Mas, para
Volochinov, essa representação ocorre de forma dupla e
contraditória: os signos refletem e refratam a realidade
visada pela representação. A modificação do signo é
resultante do fato de que o mesmo não é uma entidade
autônoma que representa os fenômenos do mundo com
"pureza", sem qualquer mediação. Os instrumentos, os
sujeitos, juntamente com os sinais materiais por eles
constituídos, se interpõem na produção dos signos, como
elementos de refração da realidade, elementos que
manipulam os sentidos segundo especificidades de sua
realidade material, processo histórico e lugar na
hierarquia social.
Portanto, o signo já é caracterizado pela natureza de
classe do grupo que o produz: dentro do conflito de
classes, a produção social do signo é a síntese das
necessidades, interesses e estratégias da intervenção de
cada classe social.
Conceber o sistema de signos como uma estrutura estável
e independente dos agentes que o produzem constitui uma
abstração científica que leva a lugar nenhum. "As
palavras são tecidas a partir de uma multidão de fios
ideológicos e servem de trama a todas as relações
sociais em todos os domínios".
Abrindo um pouco mais esta discussão, Giséle Freund
coloca "que toda a variação na estrutura social influi
tanto no tema, como nas modalidades de expressão
artística”. No século XIX, era da máquina e do
capitalismo moderno, notou-se como se modificava não só
o caráter dos rostos nos retratos fotográficos, como
também a técnica da obra de arte.
Sabemos que as superestruturas evoluem muito mais
lentamente que as infra-estruturas, e, dessa forma, foi
preciso mais de meio século para que a modificação
ocorrida nas relações de produção fizesse sentir seus
efeitos em todos os domínios da cultura. Assim, as
transformações das formas de representação são
resultantes de uma necessidade social muito específica,
gerada pelo processo histórico pertinente, vinculada à
ascensão burguesa em seu apogeu mercantilista.
O renascimento mercantilista já tinha lançado suas
primeiras sementes para que o advento industrial pudesse
multiplicar em larga escala esta nova concepção de mundo
e finalmente gerar profundas transformações em todos os
segmentos lingüísticos da sociedade.
No entanto, se o avanço tecnológico a que o processo
fotográfico está submetido for considerado, tem-se
subsídios para contestar o seu caráter documental. Hoje
não é mais possível aceitar a foto como conservadora ou
como um processo que eterniza um instante.
A tecnologia digital pode criar e recriar situações
surreais. Pode acrescentar ou suprimir informações. Mas,
este não é um privilégio único da era digital. A
manipulação ou o “retoque fotográfico” sempre esteve
presente, desde seu advento como “ferramenta”.
O fato de a fotografia ser uma analogia do real não é
suficiente para lhe conferir uma credibilidade imediata
e absoluta; caso contrário, estaríamos lhe atribuindo um
valor falso, um poder ilusório
Este poder da fotografia em falsificar os fatos e
privilegiar os interesses de uma minoria dominante, foi
amplamente utilizado pelos regimes políticos mais
radicais para perpetuar a sua força, como se pode
perceber no processo da nova ordem política que sucedeu
a Revolução Russa, ou mesmo durante o governo de Mao Tse
Tung, ou ainda na propagação do discurso nazi-fascista,
que utilizaram amplamente a informação fotográfica, como
falsa verdade.
Nesse período era comum "fabricar fotos" reconstituindo,
muito tempo depois, fatos históricos isolados, e sob o
prisma de quem detinha as rédeas do poder. Os exemplos
clássicos são as fotos da tomada do Palácio de Inverno
de Petrogrado, ou ainda a "Grande Marcha" de Mao Tse
Tung. A manipulação não para por aí. Assiste-se assim
não somente a eliminação da própria história e,
conseqüentemente, das fotos que a testemunharam, mas
também das personalidades que durante a implantação dos
novos regimes passaram a não ser mais interessantes para
as suas respectivas diretrizes governamentais. Havia
também formas mais simples de falsear - sempre de baixo
para cima - para enaltecer a grandeza do momento ou da
personalidade em questão.
Outro ponto discutido por Barthes e que merece destaque
é o fato da fotografia ressuscitar sentimentos ou, como
diz o autor, ressuscitar o "morto". Esta é uma qualidade
da foto que independe de seu tempo e do modo como foi
produzida e pode atuar tanto em âmbito particular como
coletivo. Em nível particular, uma foto pode reavivar
sentimentos relativos a alguém que não está mais
presente, ou trazer, por instantes, sensações vividas em
determinada época e que já não existem mais.
De acordo com Barthes, a fotografia fixa um tempo que
não volta, conserva, congela um momento por assim dizer.
Completando seu pensamento, pode-se afirmar que a foto
possui um caráter manipulador, mas conservador sob
determinados aspectos, e não incondicionalmente. A
fotografia, de fato, não representa apenas o resultado
de um simples “clique”.
A subjetividade que lhe é própria pode mentir, provocar,
chocar, gerar cumplicidade, evocar sensações sensuais ou
de dor, movimento, odor, som, etc. Proporciona prazer
estético, e, também, manipular a opinião pública em
favor dos interesses do próprio autor ou de seus
respectivos “mecenas”.
Toda arte é condicionada pelo seu tempo em consonância
com idéias, aspirações, necessidades e esperanças de uma
situação histórica em particular. Mas ao mesmo tempo, a
arte supera essa limitação e, dentro do momento
histórico, cria também um momento de superação que
permite continuidade no seu desenvolvimento.
O próprio fotógrafo exercita um trabalho intelectual.
Raciocina, sente e produz por meio de seu intelecto
criativo, padrão cultural, técnica e experiência de
vida. A boa fotografia é resultado de árduo projeto e
não um mero "acidente fotográfico".
Na fotografia existe a necessidade de se referir à
linguagem da imagem. Um analfabeto não compreende o
texto de jornal, mas pode ler parte das imagens, ainda
que a mesma seja captada por processo “subliminar”.
O segundo motivo é o conhecimento dos elementos que
compõem a imagem. Uma fotografia representando objetos
ou fatos desconhecidos é tão ilegível quanto um texto
escrito em idioma que não se conhece A fotografia é um
objeto antropologicamente novo e seu idioma comum
pertence ao mesmo meio sócio-cultural.
Não se pode afirmar que a linguagem fotográfica é
universal. Não há imagem fotográfica que possa ser
interpretada da mesma maneira por diferentes povos. A
própria história de vida do indivíduo, e a classe
sócio-econômica na qual está inserido, também é um fator
a ser considerado.
A leitura de um texto se inicia com uma ação óptica e
mental que se desenvolve simultaneamente, mediada por um
contexto bio-social no qual o leitor já se encontra
plenamente incorporado. O leitor primeiramente decifra
as letras, para depois assimilar o sentido de cada
palavra, estabelecer as relações entre as palavras e por
fim tomar conhecimento da frase. Na fotografia, o
processo de leitura, como veremos mais adiante,
decompostos em três fases: a percepção, a identificação
e, consequentemente, a interpretação.
Este processo diferenciado de leitura provoca reações
emocionais mais espontâneas e mais intensas do que a
leitura de um texto. Quando se lê um texto, as reações
psicológicas também se desencadeiam imediatamente, por
meio do sentido das palavras e das frases é , antes de
tudo, mediado pela imaginação, para depois ser traduzido
em imagens mentais. Na leitura da imagem fotográfica há
um amplo e direto desencadeamento das reações emocionais
e subliminares, pois esta já suprimiu essa fase
intermediária que concebe mentalmente a imagem.
Desta forma, a fotografia de imprensa não tem condições
de fornecer a decantada informação complementar, pois
ela tem a necessidade de transmitir uma informação
autônoma e não de complementar a informação já
apreendida pelo texto. Ela deve fornecer um outro nível
de informação que somente a linguagem fotográfica poderá
transmitir. E essa linguagem somente se completará se
forem utilizados todos os recursos visuais inerentes da
fotografia, seja como forma de expressão, como técnica,
ou ainda como mero documento.
Assim sendo,a linguagem fotográfica autêntica é, antes
de tudo, uma necessidade. É importante que ela exprima
os acontecimentos de maneira clara e sem a mínima sombra
de dúvidas, e que situe a sua mensagem dentro de um
espaço e de uma época. A imagem deve estar em sintonia
com uma situação específica, vivida pela cidade e pelo
local na qual ela se originou, e não com um país
qualquer. Examinando melhor os clássicos da fotografia,
como W. Eugene Smith, Henri Cartier-Bresson e mesmo o
fotojornalista brasileiro
Sebastião Salgado, notamos que foi justamente por
possuírem sujeito e circunstância que suas imagens
puderam corresponder a certo momento determinado e não a
qualquer momento aleatório da história moderna. O
ambiente em si das imagens produzidas não é simplesmente
um cenário ou uma paisagem. Essas imagens já identificam
momentos de uma situação específica vivida somente
naquele lugar, e não em outro qualquer. Sem fazer
exotismos paisagísticos, ou fotos turísticas se pode
perceber que dentro do imobilismo daquele fragmento do
real, havia ambientes e fatos na expectativa de
transformação.
Prof. Enio Leite
Focus – Escola de Fotografia
www.focusfoto.com.br
Para saber mais:
BAKHTIN, M. - Marxismo e Filosofia da Linguagem. São
Paulo, Huditec, 1986.
BARTHES, R. – A Mensagem Fotográfica. Teoria de Cultura
de Massas, Adordo et al. Luis Costa Lima, org - #. Ed.
Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1982.
- A Câmera Clara. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1980.
MACHADO, A. - A Ilusão Especular: Introdução à
Fotografia. São Paulo, Brasiliense / FUNARTE /
Inst.Nac.Fotografia, 1984.
PIGNATARI, D. - Informação. Linguagem. Comunicação. São
Paulo, Perspectiva, s/d.
SONTAG, S. - Ensaios Sobre a Fotografia. Rio de Janeiro,
Arbor, 1981.
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