A MAGIA FOTOGRÁFICA

Parte I

Você aponta sua câmara fotográfica para alguém, aperta um botãozinho e ouve um click. Acaba de capturar uma imagem num fotograma do filme que está lá dentro. Mas que mágica tecnológica é esta que nos permite guardar momentos visuais em pedacinhos de papel? Como funciona a câmara fotográfica?

Os princípios técnicos que permitem a obtenção de uma fotografia, já são conhecidos há muito tempo. A produção de imagens pela passagem da luz através de um orifício é um fenômeno relatado desde Aristóteles (384ac-322ac), na Grécia Clássica, e que se tornou popular na Renascença Italiana (século XVI), quando foi batizado de câmera obscura (em latim, câmara escura). Numa sala (ou numa caixa) mantida na escuridão, uma pequena abertura que permita a passagem de luz formará na parede oposta uma imagem invertida dos objetos do exterior. Uma lente no orifício proporcionará melhor qualidade à imagem. Basicamente, é um processo semelhante ao que ocorre com o olho humano.

Fixar a imagem fotográfica sobre uma superfície, porém, foi um problema que levou mais tempo a ser resolvido. Desde o século XVII, é conhecida a propriedade de certos compostos de prata de escurecerem quando expostos à luz. Mas uma imagem capturada desta maneira desaparecia em seguida. Foi somente no século passado que métodos de conservar uma imagem foram aperfeiçoados. Entre os mais famosos estão a heliogravura de Joseph Nicéphore Niépce e o daguerreótipo de Louis Daguerre. Mais tarde, foram introduzidos o sistema de negativo e positivo (por William Henry Fox Talbot), o filme em rolo (por Georges Eastman), e outros avanços que serviram para facilitar e popularizar a fotografia.

Mas como funciona a câmara fotográfica? Basicamente, nada mais é que uma caixa com um furo de um lado e filme fotográfico no lado oposto. Na verdade, é possível construir em casa, com uma caixa de sapatos e alguma habilidade, uma câmara fotográfica simples. Todas as máquinas fotográficas possuem estes elementos. O que as diferencia são as coisas acrescentadas para melhorar o resultado e facilitar a operação: lentes, obturadores, diafragmas, visores, controle de foco, mecanismos de avanço do filme, etc.

Vejamos as partes mais comuns de uma câmara fotográfica:

Corpo
É a câmera obscura, a caixa fechada que abriga o filme fotográfico e só permite a entrada da luz por um orifício.

Objetiva
Sistema óptico colocado no orifício do corpo. É formada por várias lentes. Diferentes objetivas provocam resultados diferentes na imagem captada.

Lente
Objeto óptico simples, geralmente um disco de vidro ou acrílico com pelo menos uma face curva. Dirige a luz que entra pelo orifício da câmara até a superfície do filme.

Diafragma
Dispositivo, geralmente formado por lâminas de metal, colocado na objetiva para controlar a quantidade de luz que entra na câmara.

Obturador
Dispositivo, geralmente formado por lâminas de metal, usado para controlar por quanto tempo a luz atingirá o filme.

Visor
É por onde olhamos para enquadrar a foto. Pode ser um sistema óptico independente (nas câmara mais simples) ou pode utilizar a própria óptica da objetiva (em câmaras reflex).

Filme
Película coberta de emulsão fotográfica, sensível à luz, na qual ficará registrada a imagem captada pela câmara. Existem muitos tipos de filmes: em cores ou preto e branco, positivos ou negativos, mais ou menos sensíveis, etc.

Nos próximos capítulos, falaremos em detalhes sobre cada um destes elementos (e sobre vários outros), explicando como escolher uma câmara, como usá-la, como selecionar o filme certo para cada situação, que acessórios usar, e que truques empregar para melhorar o resultados das suas fotos.

Parte II

Todas as câmaras fotográficas possuem elementos em comum, mas mesmo assim existem vários tipos diferentes de câmara. Desde pequeninas máquinas descartáveis até monstruosas câmaras de estúdio, as variações são muitas, em tamanho, preço, características e aplicações.

O tipo mais simples, que vemos em milhares de modelos de câmaras baratas destinadas ao fotógrafo ocasional, são as de visor direto. Nelas existe uma janela, localizada perto da objetiva, através da qual podemos enquadrar a foto. Como não vemos exatamente o que a objetiva vê, existe uma pequena diferença no enquadramento, geralmente assinalada por algumas linhas no visor.

É comum encontrarmos outros elementos simplificados numa câmara de visor direto, de forma a baratear o produto final e torná-lo acessível a maior número de consumidores. Assim, os modelos mais simples usam filme em cartucho para facilitar o carregamento, sistema de foco e controles de exposição pré-fixados. Por outro lado, existem modelos um pouco mais sofisticados que, apesar de usarem o visor direto, trazem requintes como auto-foco e regulagens de diafragma e obturador.

A maior desvantagem de uma câmara de visor direto é a diferença existente entre o que vemos através do visor e o que fica registrado no filme. Esta discrepância chama-se erro de paralaxe, e somente modelos caros oferecem correção automática.

A forma ideal de enquadrar uma foto é, evidentemente, vendo a imagem exata que é capturada pela objetiva. É isso que acontece com as chamadas câmaras monorreflex, que usam um dispositivo de espelhos que permite ao fotógrafo uma visão mais fiel do enquadramento, sem erros de paralaxe.

Existem dois tipos de câmaras reflex. As primeiras a surgir foram as TLR (twin lens reflex, que significa lentes gêmeas reflex), ainda hoje utilizadas por alguns fotógrafos. Como o nome indica, as TLR possuem duas lentes iguais. A de baixo deixa passar a imagem para o filme, a de cima envia a imagem para um espelho que a reflete para o visor. Apresentam algumas vantagens em relação aos modelos de visor direto, mas não resolvem o problema da paralaxe. Além disto, como a imagem é vista através de um espelho, aparece invertida, o que nem sempre é confortável.

Para resolver os problemas das TLR foram criadas a SLR (single lens reflex, que significa reflex de lente única, ou monorreflex). A imagem igualmente chega ao visor através de um espelho, que é recolhido automaticamente quando o obturador é disparado, de forma a permitir a passagem da luz até o filme. Isto elimina completamente qualquer erro de paralaxe, porém o enquadramento no visor é 93%em média menor, do visor e para o filme.

Combinando a vantagem de poder ver a mesma imagem que atinge o filme e também o uso de filmes em formato grande (quanto maior o filme, melhor a qualidade da imagem), surgem também as chamadas câmaras de estúdio. Na verdade, elas têm este nome por serem principalmente usadas em estúdios, já que o seu peso e o seu tamanho tornam pouco prático carregá-las, mas existem versões mais leves, geralmente em madeira, próprias para trabalho de campo.

As câmaras de estúdio são, conceitualmente, os modelos mais simples de máquina fotográfica. A luz entra pela objetiva, atravessa um fole e atinge uma placa de vidro. Acertado o enquadramento e o foco (que é ajustado estendendo ou recolhendo o fole), coloca-se o filme no local do visor e dispara-se o obturador. Na prática, porém, estas câmaras são extremamente sofisticadas e caras, usando mecanismos de precisão para obtenção de fotos de alta qualidade.

Com tantos modelos disponíveis, que câmara escolher então? Tudo depende do tipo de trabalho fotográfico em que ela será usada.

Para descompromissadas fotos de férias ou de família, a leveza e a simplicidade das câmaras de visor direto tornam-nas a escolha ideal. As que utilizam filmes de cartucho são mais baratas, mas para assegurar fotos de maior qualidade é melhor optar pelas que usam filmes de 35mm (nome dado à película que produz negativos ou diapositivos em tamanho 24x36mm).

As velhas TLR estão praticamente fora de uso, não sendo muito fáceis de encontrar. Mesmo assim, ainda podem ser uma opção barata em relação aos modelos SLR mais sofisticados. Na maior parte das vezes, usam filmes maiores que 35mm, oferecendo formatos 6x6cm ou 6x7cm.

Para um fotógrafo que queira mais controle sobre o resultado final, a escolha é uma SLR. Aqui, existem opções para todos os bolsos e gostos. A maior parte das câmaras monoreflex usa filme de 35mm, mas existem também modelos para formatos maiores (6x6cm, 6x7cm, e outros menos comuns). Quase todas as SLR permitem também a troca de objetivas, oferecendo uma flexibilidade muito maior ao fotógrafo.

Somente profissionais de estúdio ou paisagistas usam as chamadas câmaras de estúdio, caras e de difícil manuseamento graças ao seu peso e tamanho. Os negativos ou diapositivos obtidos com elas são grandes (de 9x12cm para cima) e geram fotografias com grande riqueza de detalhes.

Parte III


Como controlar a quantidade de luz que entra na câmara e evitar que as fotos fiquem escuras demais ou claras demais? Basicamente, com dois mecanismos distintos: o obturador e o diafragma.

É comum compararmos uma câmara fotográfica a um copo d’água a encher. Sabendo a quantidade de água que queremos deixar entrar, podemos controlar o processo de duas maneiras. Deixamos entrar muita água durante pouco tempo, ou deixamos entrar pouca água durante muito tempo. Em ambos os casos, o copo encher-se-á com a quantidade de água desejada. Com a câmara fotográfica, ocorre o mesmo (não, não coloque água na sua câmara, é só uma comparação). Podemos deixar entrar muita luz durante pouco tempo, ou podemos deixar entrar pouca luz durante muito tempo. O obturador da câmara controla o tempo de exposição, enquanto o diafragma controla a quantidade de luz que entra.

O obturador é um mecanismo de alta precisão que abre e fecha um orifício durante determinado tempo quando é acionado o disparador da câmara. Em geral, permite velocidades que vão de segundos a milésimos de segundos. Velocidades típicas são 1 (um segundo), 2 (meio segundo), 4 (um quarto de segundo), 8 (um oitavo de segundo), 15 (1/15 de segundo), 30 (1/30 de segundo), e assim por diante. Para exposições mais longas, existem ainda os ajustes B (que mantém o obturador aberto enquanto o disparador estiver pressionado) e T (que mantém o obturador aberto até que o disparador seja pressionado novamente).

Como conseqüência de suas características, o obturador controla também a aparência do movimento capturado na foto. Se o objeto fotografado se move rapidamente e o obturador fica aberto por muito tempo, a imagem ficará borrada. Uma exposição curta, pelo contrario, congela o movimento na foto. Quanto mais rápido o movimento a ser capturado na fotografia, menor deve ser o tempo de exposição para evitar imagens borradas. Para congelar movimentos extremamente rápidos (as asas de um colibri em vôo, o giro das hélices de um helicóptero, etc.) algumas câmaras oferecem velocidades como 2000 (1/2000 de segundo), 4000 (1/4000 de segundo) e ainda acima disto.

O diafragma é um mecanismo de alta precisão que mantém aberta a entrada de luz num diâmetro controlado pelo fotógrafo. A abertura do diafragma é medida em números f. Em teoria, f/1.0 seria a passagem de toda a luz que atinge a objetiva. Fechando o diafragma, temos números como f/1.4, f/2, f/2.8, f/4, f/5.6/ f/8, f/11, f/16 e f/22, cada vez permitindo que menos luz atravesse a objetiva. Uma objetiva ajustada em f/1.4 permite a passagem de metade da luz que passaria pelo ajuste f/1.0. Em f/2, metade da luz de f/1.4. Em f/2.8, metade da luz de f/2. E assim por diante.

Como conseqüência de suas características, o diafragma controla também a profundidade de campo da fotografia. Profundidade de campo é a distância entre os dois planos extremos em que os objetos aparecem em foco, à frente e atrás do plano de foco. Quando colocamos alguém em foco numa foto, as coisas que estão muito à sua frente ou muito atrás perdem a nitidez porque estão além da profundidade de campo. Quanto mais aberto o diafragma, menor a profundidade de campo. Inversamente, quanto mais fechado o diafragma, maior a profundidade de campo.

Em conjunto, portanto, obturador e diafragma controlam a exposição da fotografia à luz, a sua profundidade de campo, e o aspecto que terão os movimentos capturados. Felizmente, existem sempre muitas combinações possíveis para cada foto. Se a exposição correta para uma determinada fotografia for, por exemplo, obturador 1/60 e diafragma f/5.6, poderíamos usar 1/30 (dobro da luz) e f/8 (metade da luz), obtendo uma exposição semelhante mas uma profundidade de campo maior. Ou poderíamos usar 1/250 (um quarto da luz) e f/2.8 (o quádruplo da luz), conseguindo também uma exposição correta a ao mesmo tempo congelando alguns movimentos na foto. As possibilidades são muitas.

Parte IV

Existem três tipos principais de objetivas fotográficas, classificadas de acordo com a sua distância focal (a distância entre o centro óptico da objetiva e o ponto onde convergem os raios paralelos que a atingem, formando a imagem): normais, teleobjetivas e grandes-angulares.
Para definir o que seria um objetiva normal, ou seja, a que produz uma imagem semelhante à que vemos a olho nu, basta um cálculo simples. Tomemos uma câmara 35mm, por exemplo. O negativo produzido tem 24x36mm, com uma diagonal medindo aproximadamente 43mm. A objetiva normal para uma câmara 35mm é, portanto, a de 43mm. Por conveniência, considera-se objetiva normal a que tem entre 40 e 50mm de distância focal, sendo esta última a mais fácil de ser encontrada. As objetivas de distância focal superior a 50mm são chamadas teleobjetivas e as de distância focal inferior a 40mm de grandes-angulares. (Os valores citados em todo o capítulo valem somente para câmaras 35mm. Para uma câmara 6x6cm, por exemplo, cujo negativo tem diagonal de 85mm, será esta a distância focal de uma objetiva normal.)
Variando a distância focal, mudamos o tamanho com que o objeto fotografado aparecerá no filme, e também o ângulo de visão. Uma grande-angular de 28mm captará imagens num ângulo de 75º, mostrando-as menores que percebidas pelo olho do fotógrafo. Uma teleobjetiva de 135mm captará imagens num ângulo de 16º, mostrando-as maiores que percebidas pelo olho do fotógrafo.
Uma teleobjetiva permite aumentar no filme o tamanho dos objetos capturados, ao mesmo tempo que reduz o ângulo de visão, comprime a perspectiva e diminui a profundidade de campo. São geralmente usadas quando o fotógrafo não pode ou não deseja aproximar-se do objeto fotografado (num jogo de futebol ou num safári, por exemplo), ou quando algum efeito particular é desejado (isolar uma pessoa desfocando quem está ao redor, por exemplo).
Uma grande-angular permite reduzir no filme o tamanho dos objetos capturados, ao mesmo tempo que aumenta o ângulo de visão, a impressão de perspectiva e a profundidade de campo. São geralmente usadas quando o fotógrafo não pode afastar-se o suficiente para conseguir o enquadramento desejado (dentro de um ambiente pequeno, por exemplo), ou quando quer dramatizar uma cena (pela distorção da perspectiva).
Existem incontáveis variações de distância focal. O fotógrafo pode escolher desde as grande-angulares extremas, também chamadas de olho-de-peixe por produzirem imagens redondas (uma 8mm, por exemplo, com ângulo de visão de 180º), até as super teleobjetivas, que exigem um tripé somente para elas dado o seu tamanho (uma 1200mm, por exemplo, com ângulo de visão de 2º). Com tantas opções, fica difícil escolher que objetivas comprar. Dificilmente o fotógrafo poderá ter todas, e certamente não poderá carregar todas.
Um equipamento básico consiste em geral de três objetivas: uma normal (geralmente 50mm), uma grande-angular média (geralmente uma 28mm) e uma teleobjetiva média (geralmente uma 135mm). Com este conjunto, é possível cobrir a maior parte das situações. Outra opção é usar as cada vez melhores objetivas de distância focal variável, mais conhecidas como objetivas zoom. Carregando somente uma objetiva, temos à disposição várias distâncias focais (de 70mm até 210mm, por exemplo). A contrapartida é a necessidade de mais luz para trabalhar – como estas objetivas possuem mais elementos ópticos, oferecem mais obstáculos à passagem da luz pelo seu interior.
Evidentemente, uma vez que os princípios básicos da escolha de objetivas for dominado, surgirão os princípios estéticos. Existem fotógrafos profissionais que trabalham somente com uma distância focal, outros variam entre duas ou três objetivas não muito diferentes entre si. O mestre Cartier-Bresson só usava objetivas normais. O famoso Sebastião Salgado varia entre normais e grande-angulares suaves. Já Mapplethorpe dava preferência a teleobjetivas curtas para os seus retratos de estúdio. A receita é variar, experimentar, até encontrar o seu próprio estilo.

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