|
A ERA
FOTOGRÁFICA: FOTOGRAFIA E HISTÓRIA
A fotografia
corresponde a uma fase particular da evolução social
para o modernismo. A ascensão de novas camadas da
sociedade representava um maior significado político e
social. Os precursores do retrato fotográfico, nasceram
da estreita relação com esta evolução. A ascensão dessas
camadas sociais, em busca da sua individualidade e
projeção social, provocou a necessidade da produção em
larga escala de novos produtos de consumo, e
particularmente da fotografia. "Mandar fazer o retrato",
era um ato simbólico, por meio do qual o público da
classe social ascendente manifestava a sua mobilidade
social, tanto para si mesmo, como para os demais, e se
situava dentro daquele privilegiado grupo que tinha
grande consideração social. Este processo transformava,
ao mesmo tempo, a produção artesanal do retrato em meios
cada vez mais mecanizados, mais rápidos e com menor
custo. O retrato fotográfico, desta forma, representa a
fase final dessa evolução.
Desde 1750, em Paris, desponta, por impulsos sucessivos,
a subida das classes médias no interior de uma sociedade
cujas bases eram delimitadas pela aristocracia. Com o
surgimento do público burguês e o desenvolvimento de seu
bem estar material, aumenta também a sua necessidade de
projeção social. A independência econômica dessa nova
classe gera também a necessidade de conquista do seu
espaço político. O indivíduo ousa individualizar-se.
Esse ousado indivíduo precisa, mais do que nunca, de um
conjunto de leis próprias, precisa de habilidade e
astúcia, necessárias a autopreservação, à
auto-imposição, à auto-afirmação e à sua autoliberação.
Aprofunda-se a necessidade de encontrar a sua
característica manifestação, que esteja em função direta
com a sua personalidade de afirmação, e a tomar
consciência de si mesmo. O retrato pintado, que na
França era, há muitos séculos, privilégio de alguns
círculos aristocráticos, com o advento da fotografia se
democratiza. E, mesmo antes da Revolução Francesa, a
moda do retrato já começa a ter grande aceitação pelos
primeiros pequenos burgueses. Á medida em que afirmava a
necessidade de representar-se, essa moda criava novas
formas e técnicas de resultado satisfatório. Era a
maneira encontrada pela nova classe para expressar seu
culto pela individualidade. Tivemos, assim, o surgimento
da “silhouette,” que se constituía em um passatempo, ou
seja, recortar, em papel cartão preto, o perfil dos
amigos, ou ainda o retrato miniatura, executado por
pintores miniaturistas, a "preços módicos". Em 1786
aparecia a técnica da gravação mecanizada do fisiotraço,
que se baseava no mesmo princípio do pantógrafo. Era uma
nova técnica de gravação de pequenos retratos em relevo,
que copiava o perfil humano com escala e exatidão
matemáticas. Estes primeiros procedimentos de
transcrição da imagem nada tinham que ver com o
descobrimento técnico da fotografia, mas podem ser
considerados como seus precursores ideológicos.
Dois meses antes de Daguerre apresentar publicamente a
sua descoberta, um grupo parisiense de deputados já
havia proposto à Câmara que o Estado francês comprasse o
invento e oferecesse a ambos, Daguerre e Isidore Niépce
- filho de Joseph Nicephore Niépce (1765-1833), que fora
na realidade o precursor da fotografia na França e sócio
de Daguerre. Em troca, ambos receberiam uma pensão
vitalícia e a "França orgulhosamente poderia doar a
descoberta para todo o mundo". Diante da concretização
desse acordo, cinco dias antes, mais precisamente em 14
de agosto de 1839, “Daguerre já estava coberto com
patentes de sua invenção na Inglaterra, País de Gales e
Colônias Britânicas...”.
Não é difícil detectar quais os partidos políticos, ou
mesmo grupos sociais, que passaram a tutelar e defender
a fotografia neste período, sob todos os aspectos. O seu
advento, como já vimos, retratou o período de transição
já consumado pela decomposição do mundo feudal e pelo
efeito dos novos modos de produção e da avalanche de
reviravoltas políticas. Dentro desse cenário, a classe
ascendente traçava sua trilha, sem contudo encontrar seu
próprio meio de expressão artística. Procuravam, então,
ir se adequando ao padrão aristocrático. Se essa velha
classe já não tinha mais nenhuma função política ou
mesmo econômica, ainda tinha um ponto a seu favor - era
o termômetro do bom gosto da sociedade. Assim, as novas
classes emergentes não tiveram outra alternativa senão
adaptar os velhos conceitos artísticos da nobreza e suas
formas de representação, modificando-as sempre conforme
suas necessidades. Neste contexto, veremos por um novo
ângulo as relações que unem a evolução da fotografia com
a evolução da própria sociedade.
As revoluções do século XIX na França estimularam as
transformações sociais que acabaram por provocar o
crescimento do capitalismo. A Revolução Liberal de 1830
cortou definitivamente as últimas raízes com a dinastia
aristocrática legítima e, consequentemente, as últimas
esperanças de uma possível restauração, e contribuiu,
com todos os seus esforços, para que a sociedade
burguesa pudesse definitivamente se estabelecer com seu
poder natural. A França se encontrava na fase econômica
aonde a produção artesanal vinha aos poucos cedendo
espaço ao empreendimento industrial. Essas duas
realidades econômicas coexistiram durante as duas
primeiras décadas do século passado, apesar da primeira
se encontrar em declínio e a segunda em amplo
desenvolvimento. As máquinas vinham paulatinamente
substituindo o trabalho manual. A greve dos gráficos de
Paris, em 1830, refletiu claramente este novo estágio de
desenvolvimento, provocado pela instalação de máquinas
mais sofisticadas, que deixaram sem emprego grande
número de trabalhadores, ou reduziram seus salários pela
metade. Este é apenas um dos inúmeros exemplos da nova
ordem econômica que foi se instalando aos poucos e
produzindo profundas modificações na constituição da
sociedade.
Grande parte do mercado de trabalho artesanal se
proletarizou, suas condições de vida se caracterizavam
por uma miséria extrema, e seu papel político ainda era
muito insignificante. Por outro lado, bastou que a
indústria e o comércio prosperassem, para que a pequena
e média burguesia ganhasse espaço e se convertessem nos
pilares da ordem social. "Já não existe nenhuma
diferença entre Luís Felipe e eu; ele é rei-cidadão, eu
sou cidadão-rei". Esta era a palavra de ordem da época,
deixava transparecer a nova consciência que a pequena
burguesia tinha de si mesma; suas idéias e sentimentos
já eram profundamente democráticos.
Relojoeiros, farmacêuticos, comerciantes de chapéus,
alfaiates e todo o público, que possuíam um pequeno
capital e instrução primária suficiente para fazer a sua
própria contabilidade, mercadores enterrados no
horizonte do seu próprio negócio, foram os elementos da
camada da média burguesia que encontraram na fotografia
a nova forma de auto-representação, dentro de seus
limites econômicos e ideológicos. Sua situação econômica
iria determinar o caráter e a evolução da fotografia.
Sem dúvida, foi este público que pela primeira vez
desenvolveu as condições econômicas para que a arte do
retrato pudesse ter acesso popular. Como todas as novas
propostas, a fotografia também foi descendo até as
camadas mais profundas da média e pequena burguesia, a
medida em que também se fazia sentir a importância
dessas formações sociais. O novo invento, sem dúvida,
havia despertado o interesse de quase todas as camadas
sociais. No entanto, sua imperfeição técnica e os
grandes custos exigidos para as primeiras tomadas só
eram acessíveis naquele momento à burguesia acomodada.
Somente alguns aficionados muito ricos podiam se
permitir a este luxo. O processamento fotográfico
introduzido por Daguerre era bastante incômodo. A placa
metálica deveria ser preparada com a solução de
sensibilizantes momentos antes de sua tomada, e ser
revelada logo em seguida com vapor de iodo. Os primeiros
preparativos levavam de trinta a quarenta e cinco
minutos. Para fotografar paisagens, o ritual era mais
complexo, porque era necessário transportar grandes
barracas, laboratórios ambulantes com todas as soluções
químicas. Quando se tratava de retratos, o prolongado
tempo de tomada era um martírio para a "vítima", sendo o
fotógrafo obrigado a utilizar "acessórios especial” para
manter o modelo sentado e inerte, sem nenhum movimento,
enquanto fotografava. Além de tudo isto, a
daguerreotipia apresentava inconveniente fundamental:
seu processo não permitia cópias da mesma imagem; sua
câmera era muito grande, pesando em média cinqüenta
quilos; seu preço, na época, era muito alto e pouco
atrativo, o que acabou impossibilitando essa conversão
em uma indústria importante.
Mas, em todos os países da Europa, a daguerreotipia teve
êxito considerável, e mais especificamente nos Estados
Unidos sua receptividade foi imensurável. Já no final de
1839, Daguerre enviava seu representante aos Estados
Unidos, François Gouraud, com o objetivo de promover
exposições e dar conferências sobre o novo processo,
para estimular a venda de seus produtos. Nessa época, a
sociedade norte-americana ainda não se encontrava
totalmente estratificada. As possibilidades de
crescimento ainda dependiam da iniciativa individual. O
período seguinte, de 1840 a 1860, não só foi
caracterizado pelo florescimento da daguerreotipia, como
também da transformação da sociedade norte- americana,
do seu estágio agrícola para a fase industrial.
Presenciamos, nessa época, o surgimento de uma
infinidade de novos inventos como a geladeira, máquinas
secadoras, novos sistemas de produção em série, aumento
da rede ferroviária e dos telégrafos, entre outras
coisas. As cidades cresciam. Era também a época do ouro,
e da definitiva colonização do Oeste norte-americano.
Diante de todos estes acontecimentos, a jovem nação se
sentia orgulhosa de suas conquistas, e encontrou na
fotografia o meio ideal para se eternizar. Os
norte-americanos mais ativos e inteligentes
estabeleceram inúmeros estúdios fotográficos, ou
percorriam os campos e fazendas em grandes carroças
transformadas em verdadeiros estádios de daguerreotipia.
"Para a jovem democracia norte-americana este novo meio
de auto-representação correspondia plenamente ao
entusiasmo dos pioneiros, orgulhosos de seu êxito". As
tendências embrionárias do signo "fotográfico"
desabrocham mais depressa e na sua amplitude quando esse
novo meio de representação visual levado à distância.
Uma vez transplantada, a fotografia perde as raízes da
sociedade parisiense que a concebeu e as influências às
quais ela é submetida nos outros países transformam-na
rapidamente. A evolução da fotografia, nestes termos,
vai estar em estreita dependência do contexto histórico
da sociedade que a adotou. A inexistência de um passado
feudal nos Estados Unidos possibilitou maior
identificação entre a fotografia e a burguesia
industrial emergente.
O momento era ideal e propício para que a sociedade
norte-americana também pesquisasse outras possibilidades
da tecnologia fotográfica e fizesse com que George
Eastman, já em 1880, desenvolvesse os primeiros filmes
em rolo de celulóide, e lançasse a primeira câmera
portátil Kodak, em escala industrial, democratizando
definitivamente a fotografia. Isto também explica porque
o jornal nova-iorquino Daily Herald foi o primeiro
veículo do mundo moderno a imprimir a fotografia por
meios totalmente mecânicos, em 1880, e porque o
fotojornalismo norte-americano iria apresentar um amplo
avanço, um tratamento totalmente diferenciado e uma
grande aceitação por parte dos leitores, incomparável
com as demais metrópoles européias. A fotografia é filha
do capitalismo moderno. Sua semente brotou dentro das
convulsões sociais geradas pela emergência do
modernismo, já no final do século XVIII, e passa a tomar
forma nas primeiras décadas do século XIX. Seu discurso
visual é o próprio discurso da ideologia racional
burguesa. No Brasil, a invenção de Daguerre emigra para
São Paulo, atraída pela Expansão Cafeeira. A história da
fotografia é a própria história da modernidade.
Prof. Enio Leite
Focus – Escola de Fotografia
http://www.focusfoto.com.br
|
Veja nossos cursos: |
|
|
|
|
|
FOCUS - ESCOLA DE FOTOGRAFIA
Tel. (11) 3107 22 19 ou (11)
3104 69 51
Rua Riachuelo, 265 / 1ºAndar. São Paulo, SP (Atrás da Faculdade de
Direito S.Francisco/USP)
Metrô Sé ou Anhangabaú.
Fale com a Focus
ESTACIONAMENTOS PARA ALUNOS |
|
|
|