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BREVES
CONSIDERAÇÕES SOBRE O FOTOJORNALISMO
O fotojornalismo, sem dúvida, é uma das fontes
primordiais para o estudo da ideologia da imprensa, pois
o seu poder de comunicação é imediato, e o impacto
causado pela aparente veracidade de suas imagens é muito
pouco contestado pela sociedade. Assim, seu poder de
condicionar a opinião pública é muito mais direto e
eficiente em relação às manchetes e artigos de primeira
página.
Não se pretende tecer a história da imprensa ou do
fotojornalismo e nem considerar a imprensa como "um mero
jornal de informação" e o fotojornalismo como "meio
meramente ilustrativo", transmissores imparciais e
neutros dos acontecimentos, em um nível isolado da
realidade político-social na qual se insere. A hipótese
da qual se parte é que a fotografia de imprensa
representa efetivamente um instrumento de condução de
interesses e de intervenção na vida social. Neste
sentido, o objetivo será compreender como o
fotojornalismo atua no dia a dia.
O ponto de partida, o advento da fotografia já inserida
na sociedade industrial e da sua mediação pela grande
imprensa. Os jornais diários apresentam, de imediato,
duas características: são empresas comerciais que visam
lucro e ao mesmo tempo desempenham papel político
capital no contexto global da sociedade. Portanto,
apresentam-se ao mesmo tempo como empresas capitalistas
e como instrumentos políticos e ideológicos. A
fotografia, por sua vez, não só atua diretamente no
condicionamento da opinião pública, como o principal
elemento que "vende a notícia". Quantas vezes
presenciamos leitores impacientes folheando
desesperadamente um jornal até que uma imagem capture o
interesse de seus olhos e os convide a ler
tranqüilamente a respectiva notícia?
Para o jornalismo moderno é imprescindível que o público
leitor tenha dois níveis distintos de informação: a
escrita e a fotográfica. E, para tanto, não se pretende
aqui, reduzir a fotografia de imprensa a "simples arma
de difusão ideológica", mas expô-la como mensagem
visual, conotativa e denotativa, assinalando sua
importância autônoma, diferenciada de textos, legendas,
títulos ou paginação e suas possibilidades de
utilização, para melhor conhecimento da sociedade.
Mais ágil que as emissoras de TV da década de 50, na
época desprovidas de maiores recursos técnicos, a
fotografia de imprensa foi, nas eleições presidenciais
de 1960, o principal meio de comunicação, como ali já
havia ocorrido em agosto de 1954, com a morte de Getúlio
Vargas, mais recentemente, o mesmo fenômeno se verifica
com a morte de Tancredo, apesar do grande
desenvolvimento da TV.
Era ela quem endossava a campanha eleitoral de Jânio,
levando-o ao poder, com as propostas partidárias, e se
engajava a favor dos candidatos com um passionalismo que
tornava a sua presença praticamente indispensável nas
primeiras páginas dos principais jornais paulistanos.
O desenvolvimento do fotojornalismo no Brasil sempre
esteve imediatamente atrás do desenvolvimento da
imprensa e esta, por sua vez, das instituições
políticas. Nesse contexto, os momentos de crise também
se apresentavam como índices para detectar a evolução da
mensagem fotográfica e da própria sociedade brasileira.
Apesar de geradas pelo mesmo processo industrial
emergente, a incorporação da fotografia pela imprensa
foi tardia. Esse atraso se justificava pelos seus
elevados custos, pois os primeiros clichês eram
elaborados em casas especializadas e não nas oficinas
dos próprios jornais. Por outro lado, como se tratava de
algo aparentemente novo e seus proprietários ainda não
conheciam a importância desse novo instrumento,
preferiram não arriscar o prestígio e a serenidade de
seus veículos.
Mas, se a introdução da fotografia na imprensa foi um
fenômeno de importância capital que mudava radicalmente
a visão de seus leitores e, conseqüentemente, abria uma
janela para o mundo, a sua aura de veracidade não passou
despercebida, convertendo-se em pouco tempo num poderoso
instrumento de propaganda e manipulação. A produção e
veiculação de imagens estavam em sintonia com os
interesses dos proprietários da imprensa: a indústria, a
estrutura financeira, os governos. O conflito entre a
informação e o poder sempre se caracterizou pelo fato de
que este nunca mostrou a sua verdadeira face, mesmo
porque não tinha só uma mas várias. Quando a mostrava,
era em ocasiões muito especiais, como eventos litúrgicos
ou festivos, e de maneira muito superficial. Assim, não
é difícil concluir que a manipulação do conteúdo da
fotografia ocorria desde o momento da sua tomada, até a
total distorção das intenções originais, por meio de
retoques ou montagens.
O fato da fotografia ser uma analogia do real não é
suficiente para lhe conferir uma credibilidade imediata
e absoluta. Caso contrário, estaríamos lhe atribuindo um
valor falso, um poder ilusório
Este poder da fotografia em falsificar os fatos e
privilegiar os interesses de uma minoria dominante, foi
amplamente utilizado pelos regimes políticos mais
radicais para perpetuar a sua força, como se pode
perceber no processo da nova ordem política que sucedeu
a Revolução Russa, ou mesmo durante o governo de Mao Tsé
Tung, ou ainda na propagação do discurso nazi- facista,
que utilizaram amplamente a informação fotográfica, como
falsa verdade.
Nesse período era comum "fabricar fotos" reconstituindo,
muito tempo depois, fatos históricos isolados, e sob o
prisma de quem detinha as rédeas do poder. Os exemplos
clássicos são as fotos da tomada do Palácio de Inverno
de Petrogrado, ou ainda a "Grande Marcha" de Mao Tsé
Tung. A manipulação não para por aí. Se assiste assim
não somente a eliminação da própria história, como
também, das fotos que a testemunharam, mas também das
personalidades que durante a implantação dos novos
regimes passaram a não ser mais interessantes para as
suas respectivas diretrizes governamentais. Havia também
formas mais simples de falsear - sempre de baixo para
cima - para enaltecer a grandeza do momento ou da
personalidade em questão.
A fotografia, podendo ser utilizada como forma de
expressão, sempre teve livre trânsito nos caminhos da
racionalidade humana, pois sua produção é fruto da
organização deliberada e arbitrária de fragmentos de uma
realidade e a partir de uma intenção definida no momento
da descoberta "e antecede ao instante da captação da
imagem".
Seu discurso visual passa a ser aceito como ele é, sem
manipulações ou interferências, a partir do momento em
que este, por meio de sua "decodificação cartesiana",
também reflete a "ideologia racional burguesa". Segundo
Arlindo Machado, "não é exagero dizer que a câmera
fotográfica é um aparelho que difunde a ideologia
burguesa, antes mesmo de difundir o que quer que seja".
Um dos primeiros a compreender o sentido do discurso
fotográfico foi certamente Jacob A. Riis, que, durante a
década de 1870, recorreu à fotografia como instrumento
concreto de crítica social, com o intuito de ilustrar
seus textos sobre as condições miseráveis de vida dos
imigrantes no submundo de Nova York. Sua primeira
publicação, How The Other Half Lives, em 1890, comove
profundamente a opinião pública da época. Mais tarde,
também seguindo os passos de Riis, Lewis W. Hine,
sociólogo norte-americano, desenvolve durante o período
de 1908-1914 uma investigação sobre crianças na sua
jornada de doze horas, nas fábricas e nos campos, bem
como suas vida nas favelas em que habitavam. Essa
iniciativa despertou a consciência da população, que
passou a pressionar amplamente uma reforma na legislação
trabalhista norte-americana. Tivemos, assim, exemplos
inéditos que não só atestam à fotografia sua própria
emancipação enquanto linguagem, como também contribuíram
no processo de luta para melhorar as condições de vida
da sociedade. Embora tardiamente, parte dessa
contribuição foi aproveitada em 23 de novembro de 1936,
com o primeiro número da revista Life.
O novo estilo de fotojornalismo criado pelas revistas
alemãs no começo dos anos trinta, endossado em seguida
pela revista francesa Vu, foram de capital importância
para influenciar os criadores da Life. Como se isto não
bastasse, alguns dos melhores fotojornalistas alemães,
que procuraram asilo político nos Estados Unidos, se
filiaram à nova revista norte-americana, incrementando
ainda mais sua linha editorial. Esta nova linguagem
serviu para narrar histórias visuais, utilizando-se a
sintaxe de fotos seriadas.
A própria evolução do cinema e das histórias em
quadrinhos contribuiu de forma imperativa para que o
novo estilo proposto fosse aceito. Os progressos da
fotografia eram atrelados aos novos processos de
impressão (inclusive em cores), e com as transmissões
por radiofoto, e à ampliação dos complexos rodoviário e
ferroviário. Estreitou-se a relação dos mercados
produtor e consumidor, aliada ao suporte publicitário,
cuja sobrevivência e sucesso são fatais para o veículo,
e à preferência dos anunciantes em estarem presentes
nessa nova modalidade jornalística, já que seu tempo de
circulação é muito maior em relação aos jornais e o
custo do anúncio por número de leitores é muito mais
reduzido. Estes fatores também contribuíram para tornar
a Life um marco do fotojornalismo moderno e
influenciando de forma decisiva toda a produção do mundo
ocidental.
A experiência da Life deixou claro que qualquer notícia
acompanhada de fotos desperta mais interesse do que
qualquer outra informação sem imagem. Tal regra, porém,
não pode ser aplicada aos jornais mais tradicionais,
como é o caso do jornal francês Le Monde.
A incorporação da fotografia pela imprensa no mundo
moderno é facilmente compreensível: "A explicação
espacial da cultura, da política, das relações sociais
pode ser percebida. E isso é uma coisa que a fotografia
capta mais e melhor do que qualquer outra fonte de
informação. Dessa forma as informações que podem sair da
fotografia são ilimitadas". (Lissovsky)
Um dos motivos da fotografia não transmitir ao leitor
todas as informações nela contidas seria a falta de
aprendizado para sua leitura. Um texto escrito não pode
ser considerado como uma linguagem em si. Este apenas
desencadeia no intelecto do leitor um processo de
leitura que, conseqüentemente, se transforma em
linguagem. Na fotografia existe a necessidade de se
referir à linguagem da imagem. Um analfabeto não
compreende o texto de jornal, mas pode ler parte das
imagens.
O segundo motivo é o conhecimento dos elementos que
compõem a imagem. Uma fotografia representando objetos
ou fatos desconhecidos é tão ilegível quanto um texto
escrito em idioma que não se conhece A fotografia é um
objeto antropologicamente novo e seu idioma comum
pertence ao mesmo meio sócio-cultural.
Não se pode afirmar que a linguagem fotográfica é
universal. Não há imagem fotográfica que possa ser
interpretada da mesma maneira por diferentes povos. A
própria história de vida do indivíduo, e a classe
sócio-econômica na qual está inserido, também é um fator
a ser considerado. A leitura apreendida por uma jovem
bancária de 18 anos que acaba de entrar em uma faculdade
de administração é muito diferente da de um ferroviário
aposentado de 80 anos.
A leitura de um texto se inicia com uma ação óptica e
mental que se desenvolve simultaneamente, mediada por um
contexto bio- social no qual o leitor já se encontra
plenamente incorporado. O leitor primeiramente decifra
as letras, para depois assimilar o sentido de cada
palavra, estabelecer as relações entre as palavras e por
fim tomar conhecimento da frase. Na fotografia, o
processo de leitura é decomposto em três fases: a
percepção, a identificação e, conseqüentemente, a
interpretação.
Este processo diferenciado de leitura provoca reações
emocionais mais espontâneas e mais intensas do que a
leitura de um texto. Quando se lê um texto, as reações
psicológicas também se desencadeiam imediatamente, por m
o sentido das palavras e das frases é antes de tudo,
mediado pela imaginação, para depois ser traduzido em
imagens mentais. Na leitura da imagem fotográfica há um
amplo e direto desencadeamento das reações emocionais,
pois esta já suprimiu essa fase intermediária que
concebe mentalmente a imagem.
Desta forma, a fotografia de imprensa não tem condições
de fornecer a decantada informação complementar, pois
ela tem a necessidade de transmitir uma informação
autônoma e não de complementar a informação já
apreendida pelo texto. Ela deve fornecer um outro nível
de informação que somente a linguagem fotográfica poderá
passar. E essa linguagem somente se completará se forem
utilizados todos os recursos visuais inerentes á
fotografia, seja como forma de expressão, como técnica,
ou ainda como documento.
Assim sendo,a linguagem fotográfica autêntica é, antes
de tudo, uma necessidade. É importante que ela exprima
os acontecimentos de maneira clara e sem a mínima sombra
de dúvidas, e que situe a sua mensagem dentro de um
espaço e de uma época. A imagem deve estar em sintonia
com uma situação específica, vivida pela cidade e pelo
local na qual ela se originou, e não com um país
qualquer. Examinando melhor os clássicos da fotografia,
como W. Eugene Smith, Henri Cartier-Bresson e mesmo
Sebastião Salgado, notamos que foi justamente por
possuírem sujeito e circunstância que suas imagens
puderam corresponder a certo momento determinado e não a
qualquer momento aleatório da história moderna. O
ambiente em si das imagens produzidas não é simplesmente
um cenário ou uma paisagem. Essas imagens já identificam
momentos de uma situação específica vivida somente
naquele lugar, e não em outro qualquer. Sem fazer
exotismos paisagísticos, ou fotos turísticas se pode
perceber que dentro do imobilismo daquele fragmento do
real, havia ambientes e fatos na expectativa de
transformação.
A fotografia de imprensa é, antes de tudo, um signo
visual e figurativo; reflete e refrata a realidade
representada. Objetiva veicular uma informação de
assimilação instantânea, pois em seu processo de leitura
temos amplo e direto desencadeamento das reações
emocionais, já que este suprimiu a fase intermediária da
leitura escrita, que aos poucos vai concebendo
mentalmente a imagem. A veracidade da fotografia, seu
lado verídico muito difícil de ser contestado, nos induz
a lhe atribuir um poder de credibilidade e
confiabilidade muito alto. A manipulação deste signo
resulta do fato de que a imagem fotográfica não é uma
entidade autônoma que representa tudo o que ocorre em
sua volta com "pureza" e "fidelidade", sem quaisquer
tipos de intervenções. Os instrumentos e indivíduos,
juntamente com todos os valores e atribuições por eles
constituídos, interferem diretamente na produção dos
signos, como agentes de refração da realidade. Os
indivíduos manipulam as informações segundo as
características de sua realidade material, processo
histórico e posição na estratificação social.
A informação fotojornalística já nasce com o germe da
manipulação. Para se compreender melhor esse processo,
temos que nos transportar para os bastidores da notícia
e começar a investigar a partir do impacto da imagem
impressa na página de jornal e em seguida iniciar a
autópsia da imagem, procurando, ao mesmo tempo,
descobrir tanto as intenções do fotógrafo e do editor,
como também as intenções do próprio veículo. Portanto,
teremos que dissecar as imagens veiculadas na imprensa
atual. E, para que isto surta efeito, teremos que
estabelecer alguns critérios: a fotografia como
informação, a fotografia dentro do ponto de vista
estético, como a fotografia funciona em relação ao
texto, como a fotografia atua isoladamente, ou editada
dentro da página, apoiada ou em choque com o texto nesta
mesma página. E como cada caso implica na concepção de
mundo de cada veículo, pois o signo fotográfico já é
caracterizado pela natureza do grupo - neste caso,
representado pelo órgão de imprensa - que o produz,
dentro de um momento histórico dado. Não se pode,
portanto, determinar regras gerais para esse assunto.
Cada caso único e deve ser minuciosamente analisado.
Partindo desses critérios, a primeira preocupação é
detectar quando a fotografia de imprensa é verídica, ou
é uma falsa representação visando reconduzir a opinião
pública (parte-se do pressuposto de que os meios de
comunicação não formam a opinião pública, que já é
inerente ao contexto social; o que os meios de
comunicação fazem, realmente, é conduzi-la e
direcioná-la, dentro dos seus propósitos específicos), e
como se pode situar o leitor dentro de tudo isto. O
leitor comum acredita que essa imagem, fragmento da
realidade, é a própria verdade. Acredita-se que a imagem
represente uma realidade, que nem sempre é a verdade.
Isso ocorre em função da manipulação da imagem de
imprensa, que tem como objetivo fazer com que a verdade
seja refletida e refratada em função de determinados
interesses, adquirindo um efeito ilusionista.
A maioria do público leitor considera a fotografia como
analogia do real. Esta atribuição é mais do que
suficiente para lhe conferir um falso valor, um poder
ilusionista, que falsifica os fatos privilegiando os
interesses e, conseqüentemente, a intervenção de uma
minoria dominante. Esta possibilidade, inerente ao signo
fotográfico, foi amplamente utilizada pelos regimes
políticos mais radicais para estarem mais próximos à
população, e, com isso, ganharem mais credibilidade para
perpetuarem sua força. Os clássicos exemplos são as
fotos da ampla participação popular na tomada do Palácio
de Inverno de Petrogrado, a maciça presença da população
nas paradas nazistas e fascistas, ou mesmo a eliminação
de personagens políticas nas fotos posteriores, que no
processo dos acontecimentos perdem a sua aura de
prestígio e caem em desgraça. Uma fotografia
"documental" pode ser fabricada com um grosseiro retoque
e faz com que a realidade seja falseada. Durante as duas
grandes guerras mundiais, tanto os alemães como os
próprios aliados manipularam a informação fotográfica
para mostrar à opinião pública que estavam levando
vantagem da situação. Desde a Grécia Antiga, passando
pela Igreja Medieval, chegando à Renascença
Mercantilista, até os mais sofisticados meios de
comunicação de nossos dias, a classe dominante sempre
utilizou as produções artísticas, literárias, teatrais e
informativas em qualquer gênero e grau para persuadir e
chegar mais perto de sua população.
Mas a manipulação da fotografia de imprensa não se reduz
somente ao retoque, aos ângulos "mais favoráveis", à
prévia manipulação do assunto a ser fotografado,
desfocamento intencional do assunto, para que este não
se evidencie tanto, ou ainda ao corte da imagem final
retirando elementos secundários que possam comprometer o
elemento principal. A própria legenda é um dado
importante a ser considerado na manipulação da
informação. Benjamin afirmava que Atget tinha
fotografado as ruas desertas de Paris no século XIX como
se fotografa o local de um crime, pois já tinha
demarcado cada ponto da futura evolução urbana
parisiense. "Também o local de um crime deserto. O
retrato de um local semelhante não tem outro objetivo
além de descobrir indícios. Para a evolução histórica,
os clichês deixados por Atget são verdadeiras provas
documentais. Também eles possuem uma secreta
significação política. Já exigem serem exibidos num
sentido determinado. Não mais se prestam a uma
consideração desinteressada: inquietam quem os
contempla; para chegar a eles o espectador intui a
necessidade de seguir um certo caminho" (Walter
Benjamin), um indicador de itinerários, "verdadeiros ou
falsos, pouco importa", conclui Benjamin. E, estas
legendas vão ter um caráter totalmente distinto em
relação ao título de um quadro. A secreta significação
política inerente à própria informação fotográfica criou
direções para que os textos dos jornais ilustrados
impusessem a quem observasse suas imagens, legendas mais
precisas e imperativas, onde aparentemente é impossível
apreender qualquer imagem isolada que não esteja
subordinada à narrativa escrita. E, também, para que o
leitor não tire conclusões "autônomas" e contrárias ao
discurso geral veiculado.
R. Barthes, no entanto, atinge o núcleo da questão
quando coloca que a fotografia de imprensa é, antes de
mais nada, uma mensagem. Seu conteúdo nos remete a uma
realidade qualquer, perfeitamente identificável em nosso
universo bio-social. A fotografia, na sua essência, é
imagem, e a imagem é a analogia imediata do ser,
destituída de qualquer outro car ter ou acessório;
portanto, a mensagem fotojornalística é por si só
puramente denotativa, destituída de código. A ausência
deste conjunto arbitrário de signos se auto-justifica na
medida em que a fotografia choca seu interlocutor.
Nesse contexto, o uso da fotografia pela imprensa deve
ser questionado como manipulação do sistema. E é como
tal que deve ser analisado. Procedendo dessa forma, R.
Barthes descobre a necessidade de promover duas análises
distintas: primeiro, a da mensagem fotográfica em si e,
conseqüentemente, da mensagem verbal na qual ela está
inserida. O sistema fotográfico, para ele,
caracteriza-se, de início, por ser uma mensagem sem
código, porquanto se pretende a pura transcrição do
real. Enquanto no discurso textual entre o assunto
exposto e a mensagem exposta interpõe-se um código que
não reflete, nem refrata a realidade objetiva, na
mensagem fotográfica, entre o elemento real e a sua
imagem, não há a intervenção de um terceiro elemento,
mas sim a sua coincidência. A imprensa pretende que a
imagem fotográfica seja análoga ao que se fotografou.
Com essa analogia, a fotografia seria a total
transparência do real que por ela se dá à mostra, a sua
pura denotatividade. Isto, em outras palavras,
confirmaria a isenção da ideologia por parte de seus
produtores. E, mesmo sem código, a mensagem fotográfica
contém, um estilo. E é por meio desse estilo que se pode
detectar seu segundo significado, seu índice conotativo.
A legenda pretende perpetuar a coincidência da
informação dentro da hierarquia texto/imagem.
As diferenças de edição, da escolha da fotografia nas
primeiras páginas dos jornais, refletem diretamente a
linha ideológica de cada veículo, seu poder de persuasão
em determinados segmentos da sociedade e suas omissões
diante dos fatos.
A falta de um editor de fotografia, um profissional que
tenha cultura fotográfica, que impeça o mau uso da
fotografia para não alterar seu significado e oriente
melhor sua equipe de fotógrafos, também é um fator que
acarreta na manipulação gratuita e inconsequente.
Acreditamos, também, que a herança cultural e suas
respectivas formas de apropriação da fotografia pela
imprensa brasileira a partir de 1900 é outro dado que
influenciou diretamente a produção e manipulação de suas
imagens. No entanto, o advento da fotografia editorial
brasileira e seus respectivos usos e atribuições no
processo de desenvolvimento social e conquistas das
novas classes no cenário econômico e político, a partir
das primeiras décadas do século XX,.
O jornalismo impresso contemporâneo caracteriza-se como
um produto cultural industrializado, cuja função
mercadológica se justifica pela constante preocupação
com a precisão da informação.
Este produto impresso, como qualquer gênero de primeira
necessidade, atende a um segmento do mercado, com o qual
se relaciona diretamente, pois veicula informações
estritamente direcionadas à vida de seu consumidor
final, o leitor.
Estes dados precisam ser facilmente consultáveis e
manipuláveis, suprindo a lacuna deixada pela mídia
eletrônica, como é o caso das tabelas, cotações,
programações e outros dados. Uma das qualidades
essenciais do jornalismo impresso é proporcionar a
retenção das informações. Desta forma, é necessário que
a informação tenha sido previamente versada, bem
detalhada, e possivelmente acompanhada de uma análise. O
mosaico de estilos, destituído do conteúdo diferenciado,
não encontra espaço dentro deste tipo de processo, pois
a própria dinâmica industrial condiciona a criatividade
jornalística a se concentrar inteiramente no
levantamento dos dados da matéria, e não na maneira de
descrevê-la. Não só os textos se enquadram nessa
perspectiva, como também a fotografia, o desenho e os
gráficos.
O processo jornalístico tende a uma completa
homogeneização. As regras são impostas aos jornalistas
que delas não podem se afastar, para que o mercado já
conquistado pelo veículo continue sendo satisfeito. Como
exceções regra, permanecem ainda as crônicas, os artigos
assinados, e as colunas.
O padrão de qualidade de cada veículo é mantido pelos
manuais de redação, cuja função principal é facilitar a
compreensão do leitor, e ao mesmo tempo, aumentar seu
grau de retenção nas informações veiculadas.
Assim, devemos considerar que os jornais diários
apresentam, de imediato, duas características: são
empresas comerciais que visam o lucro e portanto, devem
estar em perfeita sintonia com seu mercado consumidor, e
ao mesmo tempo desempenham papel político capital no
contexto global da sociedade.
A manipulação da informação pode ser vista como o
veículo se auto-conceitua, como ele aponta sua ideologia
na própria foto, nas manchetes, nos títulos, artigos e
legendas. É uma imagem geralmente antecipada do conceito
que ele tem da realidade apreendida, respaldada no seu
mercado leitor e interagida por ele.
Prof. Enio Leite
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